sábado, 16 de maio de 2020

A PRIMEIRA MANHÃ DO TEMPO


SÍFISO

Recomeça…
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças…

Miguel Torga*, in Diário XIII, s/d




Pode a Poesia ser uma forma de ver o mundo?  De que mundo estamos a falar? “Há mais Mundos”, já o dizia José Régio no seu livro de contos; há muitos mundos – um por cada ser humano – que por sua vez se compartimentam noutros, de acordo com as percepções face ao real e ao imaginário. O meu lugar-mundo é permeável e sensível aos sonhos e às tragédias de todos os mundos – os meus e os dos outros. Sou a sonhadora racional que se quer conhecer através de todas as possibilidades até ao limite do impossível, questionando o seu contributo em relação ao próximo, inventando novas formas de intervenção através do poema. A Poesia dá a conhecer o mundo do poeta que escreve e se dá a ler, numa perspectiva de punição existencial na procura do seu lado mais negro. A punição, o castigo e o alívio andam de mãos dadas e recriam o mundo, acordando outros mundos em nós e mostrando que não estamos sós nos momentos difíceis. A Poesia é mais uma forma de questionamento que poderá resultar em epifania. E aí, sim, alcançamos algum conhecimento do mundo que nos rodeia e novas maneiras de intervir.

O mundo que nos rodeia é, na actualidade, um ambiente pandémico, escuro, confinado. Ou seja, voltado para dentro apesar da exacerbada utilização das redes e plataformas virtuais que vieram substituir as relações humanas presenciais. A peste amedronta e traumatiza, mas não paralisa. Hoje, tal como noutras épocas pandémicas, a humanidade sabe que os indivíduos são capazes de transformar a sociedade cultural, económica e ética, apesar de se focarem numa “celebração do presente”, como já o disse Bruna Vargas. Existe um apelo inequívoco à produção artística como uma tentativa de racionalizar o trauma perpetrado pela intensidade emocional deste momento trágico que agora vivemos. Em cada dia que acorda connosco, o mundo é pandémico e a arte também, enquanto expressão viva das vicissitudes. Em cada dia, a primeira manhã do tempo é a primeira manhã deste mundo novo, talvez admirável pela forma criativa como experimentamos novas formas de vida e novos modos de sobrevivência. Somos actores e espectadores numa peça de teatro sempre improvisada, com a coragem de actuar, em presença, até ao fim.

O poema Sífiso de Miguel Torga é um hino melancólico à vida, um apoio espiritual e estético nesta demanda diária e global pejada de inconstâncias. A vida enquanto nascimento, experiência e morte é uma condenação, uma aventura de constantes recomeços. Se o mundo é uma armadilha ampla que ameaça de modo tão concreto e doentio a nossa sobrevivência, como podemos encará-lo de frente? Tal como o rei Sífiso, carregando o rochedo até ao alto da colina, no Inferno, durante toda a eternidade, apesar do rochedo rolar encosta abaixo sempre que estivesse prestes a chegar ao cume? Ou como seres detentores do nosso destino, ainda que por vezes infernal, usufruindo das sucessivas oportunidades que a vida oferece, em busca de realização pessoal e solidária para com os que mais precisam?

A Arte e muito concretamente, a Poesia, enquanto expressão de liberdade criativa, podem trazer lucidez ao caos humano, à insanidade da besta. O poema não é uma simples imagem dos acontecimentos, mas também um mapa de prospecção da nossa própria humanidade. O poema apela à consciência e à moral, ao traço distintivo da nossa espécie: temos plena consciência da nossa loucura. E mesmo que nos sintamos infelizes, temos também a satisfação intrínseca de nos sabermos livres e saudavelmente loucos.

Adília César

*Miguel Torga [S. Martinho de Anta/Vila Real, 1907 - Coimbra, 1995]
Nome literário do médico Adolfo Rocha. Poeta, ensaísta, dramaturgo, romancista e contista. Cultivou a escrita autobiográfica num extenso "Diário" (escrito entre 1932 e 1994) e em "A Criação do Mundo". Além de poeta, é também conhecido pelos contos, muito estudados no ensino. Foi o primeiro autor lusófono a receber o Prémio Camões, em 1989.


sábado, 2 de maio de 2020

LAOS DEO


O estado em que vivemos, é o verdadeiro apocalipse: o apocalipse estável.
 Karl Krauss, Janeiro de 1917



A imprensa e o Estado de Emergência decretado pelo governo conseguiram fechar-me em casa, e actualmente a única filosofia de vida que professo é a do confinamento. Pensando convictamente que estaria a proceder da melhor maneira, dei por mim a ressentir-me de uma outra espécie de maleita: a da obediência ao jugo do poder do Estado e da imprensa.

A imprensa tem exercitado a sua função informativa, formativa e deformativa de modo controlador, coercivo e intimidante, plagiando a interioridade emocional dos Cidadãos – os indivíduos portadores da doença do Medo – e influenciando estados do espírito colectivo: amedrontar e comover, para controlar e fazer obedecer.  O poder central e o poder regional andam de mãos dadas: na minha rua, diariamente, uma viatura do município dissemina no autofalante a seguinte mensagem aos seus munícipes:

- Mantenha a distância de segurança. Proteja-se a si e aos seus, fique em casa. Aguarde com a distância de segurança pela sua vez no atendimento. Seja responsável. Juntos, vamos parar o Coronavírus. Mensagem do Município de Faro.

A epidemia causada pelo coronavírus chegou e veio para ficar nos “últimos dias da humanidade” (ainda Karl Krauss), tendo em conta que vivemos uma nova pandemia, a tal “catástrofe permanente” evidenciada por Walter Benjamin – pois não são todos os dias os últimos dias da humanidade? Na nossa tragédia, tal como na de Krauss em “Os Últimos Dias da Humanidade”, quase não existe desenvolvimento dramático. Nas notícias incessantemente difundidas, ou melhor dizendo, na única notícia difundida – a pandemia Covid 19 – assiste-se a uma vaga progressão dos acontecimentos a ela relativos, mas na verdade somos apenas coagidos a obedecer aos aspectos principais da “cura”: o distanciamento social que destrói o afecto humano, a avidez pelos números de infectados e de mortos que nos amedronta, a destruição do tecido empresarial que implica uma quase total dependência económica do Estado, a vigilância exacerbada das autoridades que impede a deslocação normal dos cidadãos, a não ser em caso de absoluta necessidade; e tudo isto imposto por decreto-lei. Como não obedecer, se o que está em causa é a saúde pública e qualquer desvio à norma é um elo acusatório e vergonhoso da conduta humana? Não há como negar que todo o acto humano pode implicar consequências desumanas e em épocas históricas de peste está sempre ligada a uma noção inequívoca de poluição moral, de sujidade e conspurcação da alma.

O poeta Rimbaud escreveu: «O ar e o mundo já são demandados. A vida.» Também o psicanalista Wilhelm Reich corroborou a ideia de ar humano contaminado: «Existe uma energia orgânica mortal. Ela está na atmosfera.» e se a tese proposta por Paulo Varela Gomes (1981) fizer todo o sentido em 2020 ou em qualquer época, como na Idade Média ou no Antigo Regime? Ele sugere que se ponha de parte a questão biológica da epidemia e da infecção, admitindo que são os organismos sociais humanos que a contraem e se contaminam. A epidemia seria um fenómeno ideológico e político e pertenceria ao Estado e aos seus Aparelhos. Nesta análise, o editor e psicanalista Vasco Santos sintetiza o fenómeno, em forma de alerta: «O que é dito é que a Peste, quer na Idade Média quer no Antigo Regime, foi uma doença das formas de dominação de classe, dos aparelhos de Estado e das ideologias. Tal como no passado, o coronavírus, um vírus afinal modesto e tímido, serve para impor a ordem, higienizar o corpo e a cidade e relativizar o contrato social. Ele permite controlar, vigiar e punir. O coronavírus intensifica a biopolítica e o niilismo, a máscara e a assepsia. Trata-se de um vírus, ou melhor, de uma estratégia higienista, antipsicanalítica pela acentuada diminuição da empatia, pela distância social legitimada e pela perda da poesia do real quotidiano. Esta política espectacular acentua a ideologia da saúde (por falência da ideia de salvação) e forclui a morte, esse tabu excelentíssimo de agora. Desinfectamos magicamente as mãos porque somos contra a morte.» Não está tudo dito, mas é um excelente ponto de partida para uma urgente reflexão nesta semana em que recordámos o 25 de abril e o 1º de maio como marcos de Liberdade na sociedade portuguesa; é também um momento bastante oportuno para reler a ficção “1984” de George Orwell, uma distopia muito bem conseguida sobre as tendências totalitárias das sociedades do século XXI.

Krauss é, decididamente, o “mestre da indignação”, conforme referiu Elias Canetti num ensaio que a ele dedicou. Indignemo-nos também, ainda que sem grandes dramas. Mas não nos fiquemos pela rama dos acontecimentos. As ciências médicas tiveram avanços tremendos no que diz respeito ao controlo de doenças e no aumento da esperança de vida das pessoas. Pensámos que a Demagogia – a Peste, a Praga, a Epidemia – tinha sido erradicada, mas aí a temos, de novo, avassaladora e destrutiva dos nossos princípios básicos, do nosso livre arbítrio. E volto a Krauss, nas palavras de Vasco Santos: «pois tudo o que não foi destruído pela peste, sê-lo-á pela imprensa.»

Ao toque de clarim do primeiro Estado de Emergência senti-me afundar num pântano, mas ao fim do terceiro consegui agarrar alguns ramos fortes do pensamento de diversas personalidades que aqui tentei sintetizar. E juro que não morrerei ainda hoje. Laos Deo.

Adília César

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sábado, 18 de abril de 2020

O ADMIRÁVEL MUNDO DAS COMEMORAÇÕES


A economia, a saúde, gente a morrer todos os dias, etc. "Vai Ficar Tudo Bem", nem quero imaginar o que seria se tudo ficasse mal.

Raul Pimenta




A comemoração da Páscoa foi bem diferente, neste estranho ano de 2020. Na sua definição, o tempo destinado à Páscoa é a reflexão sobre a crucificação, a morte e a ressurreição de Cristo. Talvez seja a principal comemoração da tradição cristã porque coloca em evidência de Verdade a crença na ressurreição de Cristo, que se ofereceu em sacrifício para a salvação da humanidade, dando-nos a perspectiva de uma nova vida. Através de uma simples associação de ideias, chego aos técnicos de saúde e seus auxiliares retidos nos hospitais, em sacrifício, dia após dia. Tentam salvar a humanidade. Há muitas formas de crucificação e muitas maneiras de morrer, mas desconheço modos eficazes de ressurreição. Nesta Páscoa eles foram os meus "Cristos" e vieram substituir as amêndoas e os folares, as tais alegrias doces que não estiveram na minha mesa de Domingo de Páscoa por vontade própria. E no tempo do porvir – Estado de Emergência ou similar – eles são e serão os meus heróis. Demonstro um profundo respeito por todos esses corajosos e incansáveis profissionais através do meu confinamento, para não adoecer e não contagiar os outros. E isso basta-me enquanto comemoração e actual filosofia de vida.

Tenho também dedicado algum tempo a reflectir sobre o valor humano do mundo virtual neste período de isolamento, a tentar que o meu pensamento alcance algo diferente da coisa pensada, ou melhor dizendo, que encontre uma passagem para o real. Mas não é fácil. Na verdade, não podemos filtrar aquilo que queremos ver ou ler nas redes virtuais onde parece estarmos a gastar tanto do nosso precioso tempo: a quantidade de "shits" sobre a pandemia que nos é oferecida diariamente pelos “especialistas”, multiplicada em numerosos grupos de apoio à cena Covid-19, é avassaladora e viola as nossas intenções mais inocentes. Existem, no entanto, verdades bombásticas: a cada dia, há mais pessoas infectadas e algumas delas irão morrer; o mundo económico está em grande parte parado, causando um perigoso estado de precariedade no poder financeiro das famílias, logo, da sua sobrevivência; o país e o mundo equilibra-se numa corda bamba; a vida está suspensa bem acima das nossas cabeças ocas. Tudo se resume a sermos capazes de desenhar um mapa pessoal de sobrevivência, que é, afinal, igual para todos: não adoecer, não contaminar os outros, conseguir ter dinheiro suficiente para adquirir bens de primeira necessidade, ser solidário para quem mais precisa.

O espírito positivo está na moda e os arco-íris também. Mas nada disso nos irá salvar. Precisamos de acreditar no poder maligno deste novo vírus, desconfiar de tudo o que nos dizem e, até ao limite do impossível, prestar a devida vénia ao distanciamento social. Logo, uma boa dose de negativismo, sem distracções. Só isso dará mais tempo ao nosso tempo. Para não morrer ainda.

Graças a Deus, o Seu Filho já ressuscitou e podemos enterrar a Páscoa, dando início a uma nova semana que mais parece "a sombra de uma sombra" (belo título para um livro de poemas...). A vigilância assoberbada sobre os habitantes deste planeta infectado assusta-me. E aceitamos essa vigilância virtual porque estamos à mercê de um vírus que nos colocou a todos, de uma assentada, em sucessivos Estados de Emergência controlados pelas autoridades que afinal só nos querem salvar. 

Vêm aí outras comemorações: o 25 de abril e o 1º de maio. Este ano, e sem qualquer espécie de ironia, tentarei não aturdir o pensamento com ideologias de outros tempos e vou substituir os cravos vermelhos por máscaras, luvas e gel desinfectante, tomando a Liberdade como minha conselheira.

#VaiFicarTudoBem? Cuidado com a demagogia do espírito positivo. Faz mais sentido, para mim, o seguinte slogan: #VaiFicarTudoDiferente.

Adília César

sábado, 4 de abril de 2020

OS TÍTULOS PROVISÓRIOS


O que se pede à cena é apenas o delírio de uma coisa exacta.
Herberto Helder




Hoje fiquei em casa, como de costume. E ontem. E amanhã. O que se levanta é a lentidão de um gesto, na janela agora aberta, pela necessidade de fazer alguma coisa. A matéria reveladora do desalento dá significado ao medo de dormir e de acordar. Ergo uma muralha em redor dos acontecimentos fatais que ouço a toda a hora nas notícias. Esse é o retrato do mundo real, tal como nunca o tinha conhecido, um quase-tempo, um quase-lugar. E o tempo, com a duração esticada até aos limites do impossível, parece não ter movimento, é o cúmulo da inércia. As ruas, as nuvens, as pessoas, um vazio intolerável e desumano, de tão nublado sobre os telhados de vento e martírio. Quero sair para fora de qualquer coisa que me atraiçoa, mas fiquei em casa, como de costume. Iluminei-me com uma certa luz interior.

Amanhã é um outro dia que não vai chegar, pelo menos para alguns. Na verdade, “não vamos ficar todos bem”. Pelo menos, não da forma como conhecíamos os dias, concretos, palpáveis - esquemas organizadores do tempo de cada um. Por agora, permanecemos na fronteira do desconhecido, entre paredes e objectos tão familiares. O idioma das águas está a ser inventado naquele preciso instante do início da chuva, do princípio de tudo; parece ser sempre a primeira vez, de cada vez que acontece alguma coisa: o estrondo do trovão, o riso da criança, o ronco do automóvel pela manhã. Borboletas imaginárias nas experiências de espanto.

Estamos fechados em casa, em permanente delírio: quantos mortos?

Se tudo o que existe no mundo começou com um não, o arrepio é a sensação mais pura que Deus inventou, para dar a possibilidade aos humanos de contradizerem as tragédias. A Sua Mão a cair sobre as nossas cabeças, desde sempre. Depois, a cena desenrola-se na nossa consciência, como uma passadeira vermelha de vaidades, crimes, boçalidades e absolvições. O arrepio continua a ser a resposta visceral à propagação de todos os vírus, literais e metafóricos: a música que nos inebria, o poema que nos fascina, a imagem que nos choca, a mazela que nos apavora, a atitude altruísta que nos comove. E se para muitos Deus não é para aqui chamado, manter o arrepio como sensação de vida parece-me razoável, prodigioso até. Afinal, ainda estamos vivos.

Permaneço escondida em casa e espero um caudal de milagres. Não me atrevo a pedir ajuda, porque não compreendo o que está a acontecer. E enquanto a cidade exibe janelas fechadas e ruas vazias, espero não ser vista pelo dragão. Acredito que essa perturbação interior e submissa só pode ser captada com a lente especial do movimento das horas, que ainda não foi inventada, apesar de toda a tecnologia patente no meu smartphone. É um relógio que anda ao contrário, em direcção ao passado, aquele tempo familiar em que o mundo todo nos pertencia. Agora, o espírito soterrado comanda a vida numa absoluta concentração.

Um ponto, uma linha de luz, contemplação introspectiva e difusa da estrela longínqua que guardo nas mãos e pretendo devolver ao firmamento: esmola que dá tempo e mais tempo, movendo-se por entre os dedos, caindo sobre a minha cabeça de aflição luminescente. Tu abres os olhos ao brilho: foste visto quando apenas querias ser ouvido. A mão de Deus curvada sobre a humanidade, essa espiral de antagonismos: quantos mortos? O mundo, tal como o conhecíamos, chegou ao fim. Amanhã é um outro dia diferente. Resta-te, pois, esperar, tal como todos nós. Mas, andando sobre o andamento do tempo, pareces estar parado.

Lá fora, os pássaros cantam porque sabem que a primavera já chegou.


Adília César

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sábado, 14 de março de 2020

OS PORTUGUESES

O Povo completo será aquele que tiver reunido no seu máximo todas as qualidades e todos os defeitos. Coragem portugueses, só vos faltam as qualidades.

Almada Negreiros

Portugal é um pequenino canto da Europa, encantador, crédulo. E também fanfarrão, irresponsável, exasperante. Além do clima ameno e da boa gastronomia, pouco mais há a dizer de positivo, apesar de toda a benevolência compassiva que ainda consigo escavar bem no fundo de mim mesma. Afinal de contas, sou portuguesa e sirvo os outros na minha actividade profissional há mais de 30 anos.


Desenho de Matilde B., 4 anos de idade

É nas situações de crise, como a conjuntura actual provocada pela pandemia do Covid 19, que me apercebo melhor do estado em que se encontra o meu país. Faz sentido relembrar as palavras do filósofo José Gil (Moçambique, 15 de junho de 1939), considerado pelo semanário francês Nouvel Observateur como um dos "25 grandes pensadores do mundo", que em 2004 publicou o livro "Portugal-Hoje, O Medo de Existir", no qual pretendia realizar uma radiografia ao "carácter português". A maior lição a retirar desta pequena obra prima da filosofia é o conceito da “não-inscrição”, a par da existência de um processo de controlo social sobre a população portuguesa por parte das classes dominantes nos diversos quadrantes da sociedade – político, cultural, artístico – através da apresentação de sucessivos disfarces para a Democracia, uma palavra já tão gasta e incompreendida que se confunde facilmente com demagogia, inércia, corrupção e pessimismo. Esta “democracia” doente tem-se propagado como um vírus e vem consignando este fragilizado Portugal como o país da não-inscrição:

Em Portugal nada acontece, «não há drama, tudo é intriga e trama», escreveu alguém num graffiti ao longo da parede de uma escadaria de Santa Catarina que desce para o elevador da Bica. Nada acontece, quer dizer, nada se inscreve - na história ou na existência individual, na vida social ou no plano artístico. Talvez por isso os estudos mais sólidos e com maior tradição em Portugal sejam os que se referem ao passado histórico, numa vontade desesperada de inscrever, de registar para dar consistência ao que tende incessantemente a desvanecer-se (e que, de direito, se inscreveu já, de toda a maneira - mas onde?). Curiosamente, aquele graffiti tentava inscrever a impossibilidade de inscrever...(...) Se, num certo sentido, se disse até há pouco (hoje diz-se menos) que «nada mudou» apesar das liberdades conquistadas, é porque muito se herdou e se mantém das antigas inércias e mentalidades da época da ditadura: desde o medo, que sobrevive com outras formas, à irresponsabilidade que predomina ainda nos comportamentos dos portugueses. (pp.15-17)


Relógio d'Água, 2004

Nestas circunstâncias de insegurança, há uma correlação directa de causa-efeito nas acções dos cidadãos. Como se manifesta a intervenção cívica perante uma crise de saúde pública que esbarra com comportamentos irresponsáveis de uma geração jovem sobre a qual os mais velhos depositam a sua esperança num mundo mais justo? No dia em que a Organização Mundial de Saúde declarou o estado de Pandemia de Coronavírus, fazia-se sentir um belo dia de sol em Portugal, e o bom tempo levou muitos jovens estudantes com aulas suspensas às praias da linha de Cascais, indiferentes à situação de pandemia, pondo em risco a sua saúde e a saúde dos outros. Qual o valor da consciência democrática?

Na minha actividade profissional, sirvo os outros numa escola. Não estou em pânico com o Covid 19. Os nossos governantes tentam convencer a população portuguesa: dizem ter as melhores intenções e que estão plenamente dotados de competências estratégicas para conseguirem resolver com "serenidade, calma e bom senso" o que aí vem. Pura demagogia, pois não se vê qualquer acção preventiva digna de nota no que diz respeito a um sector público da maior importância: creches, infantários, jardins de infância, estabelecimentos de educação e de ensino. Na minha escola, toda a comunidade educativa está apreensiva com as decisões tomadas pelas pessoas que, supostamente, sabem o que estão a fazer para nos proteger. Sabem mesmo?! A desconfiança instalou-se e veio para ficar. Mas não, não estou em pânico. As crianças que me acompanham dia a dia também não. Temos a linha da Saúde 24 para pedir ajuda e o Plano de Contingência da nossa escola para consultar. Não temos mais nada, mas não estamos em pânico. Temos serenidade, calma e bom senso, como nos pediram. E vamos todos os dias para a escola, até ao dia em que passaremos a fazer parte de uma qualquer estatística.

Adília César

sábado, 29 de fevereiro de 2020

PROCURAR A PÁGINA QUE NOS FALTA


«1
O começo de um livro é precioso. Muitos começos são preciosíssimos.
Mas breve é o começo de um livro – mantém o começo prosseguindo.
Quando este se prologa, um livro seguinte se inicia.
Basta esperar que a decisão de intimidade se pronuncie.
Vou chamar-lhe fio _____ linha, confiança, crédito, tecido.»

Maria Gabriela Llansol, in O Começo de Um Livro É Precioso

Foto de Diego Cusano

O dom poético é uma inquietação prolongada no tempo real e no espaço imaginário. Por um lado, o tempo em que vive e escreve o poeta; por outro, o espaço geográfico e metafórico que o poeta ainda não conhece e sobre o qual escreve. Nesta luta entre o real e o imaginário tudo pode acontecer: a pandemia melancólica, o paradigma da contemplação do desastre sentimental, o desfile dos dramas pessoais e sociais. Aí se inscreve a imagem do escrito e do lido, o poema por descobrir; o poema que nos atrai e tantas vezes nos atraiçoa na intimidade que abrimos à lança de cada recomeço – na escrita e na leitura.

O poema é uma casa – o caos doméstico do pensamento íntimo, um entra-e-sai, a fuga e a recentração. Um poema chama o outro poema ao longo de uma linha, de um caminho singular, do princípio para o fim ou do fim para o princípio. A imagem do silêncio que o poeta constrói à volta das palavras e dos espaços entre as palavras escreve-se nos olhos do leitor, logo, a impressão causada pelo poema será sempre uma imagem das intensidades pensantes do imaginário de ambos – escrevente e ledor – numa tentativa de mútua não-anulação das intenções e das expectativas perante o texto poético em cada começo, e também face às páginas ainda não habitadas, as quais podem ser recomeços preciosos, respirações de escuta, procura e entendimento. Entrar e sair do poema para voltar a entrar.

Quando e onde é que a seta do poema nos atinge? No início, meio ou fim? Nas palavras ou nos espaços em branco? Depois de quantos recomeços? E se retirarmos todos os espaços vazios e permitirmos ao texto a mancha contínua de letras nas páginas do livro, como encontraremos o mapa da página que nos falta, aquela que fala com a nossa intimidade?

«Todas as coisas já estão ditas, mas como nin­guém escuta é pre­ciso re­começar sempre», disse o escritor francês André Gide. Na verdade, tudo é um recomeço inevitável: a noite a seguir ao dia, o clímax a seguir ao desejo, as lágrimas a seguir ao luto, o nojo a seguir à violência. E depois vamos à nossa vida.
É preciso escutar a murmúrio das palavras no meio de todo este ruído perpetuado pelas línguas impostoras.
Levar o caos criativo a esta virtual e falsa ordem de lugares comuns.
Pensar, indagar, recomeçar através das palavras, nem que seja apenas um poema onde a pulsão do poeta nos remete ao lugar que almejamos: o plano intencional da estética e da arte como intervenção social, um tempo real e um lugar imaginário como recomeços preciosos. A decisão da intimidade como descoberta de um outro eu.

Adília César
in https://issuu.com/danielpina1975/docs/algarve_informativo__238

sábado, 15 de fevereiro de 2020

PATOLOGIA DA ARROGÂNCIA


(…) pessoas que pensam que tudo lhes é devido, que o mundo existe para lhes prestar vassalagem. (…) Enfim, tudo isto é velho como o mundo, mas tem dias em que aparece cru.
Anabela Mota Ribeiro

I

Patologia da arrogância. Esta não é uma expressão frequente na linguagem comum do dia-a-dia. Mas pensando bem, há muitas pessoas que sofrem ilusões de grandeza. Esses seres “iluminados” acreditam que são famosos, ricos, inteligentes; estão convencidos que são superiores aos outros; esforçam-se por nos subjugarem à sua perfeição, são manipuladores exímios através de meios persuasivos e magnetizantes. Cuidado, essas pessoas têm, na verdade, um grande poder – o de sugar a energia alheia.

Do ponto de vista psicológico, podemos aceitar que alguns destes indivíduos sofrem de Transtorno da Personalidade Narcisista (TPN), ao sobrevalorizarem as suas próprias características na importância e singularidade, quando ao mesmo tempo não aceitam como válido o êxito pessoal ou profissional dos que os rodeiam. Pensam que tudo está mal e que eles próprios teriam a solução para os problemas da sociedade. Os arrogantes não admitem a culpa e querem manter as aparências a todo o custo. Eles são insuportáveis… No Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM – IV a patologia é caracterizada por sentimentos exagerados de autoimportância, uma necessidade excessiva de admiração aliada a uma falta de compreensão dos sentimentos dos outros.

Mas afinal, seremos todos um pouco doentios, do ponto de vista da auto-estima?


Desejamos conhecer a nossa importância como indivíduos? Sim.
Necessitamos de alguma admiração por parte dos outros? Sim.
Falhamos frequentemente perante os sentimentos alheios? Sim.
Parece que o maior desafio tem a ver com a pressuposta fronteira entre o aceitável e o patológico. E acredito que todos ultrapassamos esses limites, pelo menos de vez em quando…


II

No Jornal Expresso de 8 de Fevereiro de 2020 pode ler-se uma reportagem de Chistiana Martins, após o episódio da criação de um index que proíbe a divulgação de clássicos da literatura do Brasil nas escolas públicas do estado de Rondónia:


"Medo do escuro?" - Jair Bolsonaro

“O governo do estado de Rondônia, no extremo norte do Brasil, determinou a recolha de 43 obras literárias por considerá-las ‘conteúdo inadequado’ para as escolas da rede pública. Entre os livros censuradas estão clássicos da literatura brasileira de autores como Machado de Assis, Euclides da Cunha, Mário de Andrade, Nelson Rodrigues, Ferreira Gular, ou Rubem Fonseca, aquele que teve mais títulos excluídos: 19. (…) Também Aurélio Buarque de Holanda, autor do mais referenciado dicionário brasileiro e primo do autor e cantor Chico Buarque, tem obras retiradas do ensino público. Mas nem só autores brasileiros são censurados, também nomes universais como Franz Kafka ou Edgar Allan Poe foram rejeitados. (…) Rondónia é governado pelo coronel Marcos Rocha, seguidor da orientação ideológica de Olavo de Carvalho, considerado o mentor do Presidente Jair Bolsonaro. A ordem para retirar os livros terá vindo do secretário da Educação, Suamy Vivecananda, que classificou os livros incluídos na lista como tendo ‘conteúdos inadequados a crianças e adolescentes’.”


III

Primeiro proíbem os livros, depois queimam as ideias e… O que se seguirá é uma incógnita porque a patologia da arrogância é um fenómeno de fácil propagação e nunca será travado. Que havemos de fazer com tudo isto? Tirar a casca e comer cru? Ou devemos assumir o medo que temos do escuro, para enfrentarmos o negrume da censura e saltarmos no vazio metafórico do pensamento e da linguagem, acreditando que temos asas e conseguiremos voar?


sábado, 1 de fevereiro de 2020

CONTRA O ESQUECIMENTO


“Desde que comecei a desenhar a carvão, percebi que carvão e cinzas são iguais. E que esses seres humanos foram reduzidos a cinzas.”
Manfred Bockelmann*


Erdmann Schmidt, 7 anos, assassinado a 12 de Junho de 1943
  
O berço errado dos filhos do Holocausto. Talvez não haja uma injustiça maior do que a de nascer vítima da sua própria inocência e fragilidade. Crianças invocadas como impuras, vítimas das trevas da repressão. Não são mártires despojados da sua individualidade, os seus rostos não estão marcados pela fome, doença ou exaustão, os seus corpos não estão amontoados sobre outros cadáveres. Elas estão vivas e ainda enfrentam o martírio. Não sabendo o que as espera, “sabem” o que já não as espera: uma infância transfigurada pela crueldade.

O médico, de bata branca e lábios finos, prepara o equipamento fotográfico e as tabelas de registo. Recebeu ordens para documentar todo o processo experimental. Na sua frente, mais uma “praga popular” que precisava de ser eliminada para garantir a suposta “pureza do sangue alemão”: Erdmann tem 7 anos e ainda está a usar a roupa que trazia quando entrou no campo de Auschwitz. Tenta ajeitar o botão que parecia segurar um mundo de incerteza e submissão ao medo. O médico pergunta-lhe o nome e o rapaz responde “Erdmann Schmidt”, tentando mostrar-se afável e obediente. Apesar do ambiente aparentemente calmo e inócuo, o seu olhar vai ganhando uma dimensão inquiridora perante o desconhecido, abrindo-se à imaginação. O homem insiste na posição que ele deve tomar para ser fotografado, olhando-o de frente. Erdmann ainda sorri. Está tão nervoso que não consegue sequer pestanejar. Os olhos abertos, tão abertos como fontes de água começam a secar, a desvanecer a memória de outros tempos mais felizes. Erdmann já não sorri. Ele “sabe” da inevitável tragédia daquele lugar, já ouviu contos de fadas em que homens maus impossibilitavam os finais felizes.

Estou a ver-te, meu pequeno Erdmann, apesar de não estar aí contigo para te poder salvar. Tu és “o outro”, mas és o “outro-em-mim”. És tão belo, pareces emanar uma claridade própria da infância perante a tragédia irreparável. Vestes a tua melhor roupa. És todo luz de vida, mas hoje, perante o flash da máquina fotográfica, a esperança abandona-te, escurece as paredes brancas e imaculadas do espaço. Não sabes explicar porquê. Não sabes o que te farão, mas tens frio, sentes um frio palpável por dentro, levas as mãos ao peito e logo a enfermeira vem colocá-las, prontamente, onde elas estavam antes, encostadas ao teu corpo, como se fosses uma máquina. Talvez aqueles braços já não fossem os teus e por isso deixaste-os caídos, separados dos ombros, inaugurando uma nova posição aliada à força da gravidade que é agora a mãe da angústia, a tua única mãe. Os pesadelos abrem-se como desenhos da infância, apagando-se à medida que vão sendo feitos: inúteis, portanto, os pensamentos e os acontecimentos desenhados. Um conflito entre a utilidade e o propósito da existência. Os minutos passam encostados à porta, querem entrar à força para te levarem de uma vez por todas.

Perdoa-me, mas não te posso dizer que a tua carne será cortada e cosida. Que o teu sangue secará sobre as tuas dores perversas. Que chorarás o terror dos dias e das noites, o tempo eterno desse lugar. Que o teu espírito enfrentará o duro desígnio do esquecimento. Perdoa-me, meu querido Erdmann, mas não te posso dizer que serás assassinado no dia 12 de Junho de 1943.

Ninguém chorou por ti. Seria maravilhoso se pudessem fazê-lo agora, para que a tua vida tenha um desenho mais colorido. Porque se os seres humanos não se lembrarem da sua história, é porque não viveram.

Atelier de Manfred Bockelmann

Exposição «Manfred Bockelmann. Desenhar Contra o Esquecimento»

Manfred Bockelmann

* A exposição especial «Manfred Bockelmann. Desenhar contra o esquecimento» foi inaugurada em Maio de 2013 no Museu Leopold de Viena e recebeu cerca de 100.000 visitantes nessa primeira exibição pública. Mostrou retratos em larga escala, feitos com carvão quebradiço sobre juta, de crianças e jovens que foram vítimas do maior genocídio do século XX, às mãos dos executantes do regime nazi. Os seus desenhos deixam-nos sem palavras, horrorizados e abalados. Manfred Bockelmann usa como modelo as fotografias tiradas pelas SS, nas quais a vida que se reflete nos olhos e rostos das inúmeras crianças assassinadas tanto nos emociona. Os retratos, de aparência “inacabada”, provocam precisamente o drama da infância interrompida, logo “inacabada”. O projecto "Drawing against oblivion” do artista austríaco Manfred Bockelmann pretende arrancar da anonimidade algumas das vítimas mais desprotegidas do maior genocídio do século XX. A ética humanística da exposição e do documentário exibido em 2015 proporciona a empatia com o espectador e torna-a uma das mais significativas para a história do Holocausto, no sentido de dar um nome e uma identidade aos rostos antes fotografados nos campos de concentração. O filme leva-nos numa viagem através de arquivos nos Estados Unidos, no campo de concentração de Auschwitz e de testemunhos de sobreviventes do Holocausto, que na altura eram crianças. A exposição e o documentário são apelos à tolerância e à humanidade, e tornam visível a única coisa que podemos fazer: tomar consciência do que aconteceu para evitar que algo semelhante se repita.

Em Portugal, por ocasião do Dia Internacional da Lembrança do Holocausto (2019) foi inaugurada no dia 31 de Janeiro, no Andar Nobre da Assembleia da República, a exposição "Desenhar contra o esquecimento". Ficou patente até 8 de Março de 2019.


Para saber mais:


sábado, 18 de janeiro de 2020

DE TÃO AZUL


Afinal antigamente não havia palavra para azul,/ cor a que os olhos ainda não se tinham habituado:/ o céu era de um tom indistinguível,/ o mar vinho escuro. (…) Pois só damos nomes às coisas que encontramos/ e sentimos ao rés da realidade/ como a ave excêntrica que nos bica os calcanhares.

Catarina Costa, in CHIAROSCURO

"O Naufrágio" de J. M. W. Turner (1775-1851)

A história das cores deve ser uma história social das cores, uma vez que é a sociedade de cada época que faz a cor, que a define e lhe dá sentido – o espectáculo do azul na natureza, o modo como a biologia do ser humano percepciona o azul, mas, sobretudo, práticas, códigos, sistemas, mutações, desaparecimentos, inovações e fusões que afectam todos os aspectos da cor azul historicamente observáveis, ou seja, todas as implicações sociais do azul. Ah, o imenso céu (azul?) num claro dia de uma qualquer amena estação do ano… Sendo um fenómeno natural, é também uma construção cultural complexa e ainda se assume como raridade do ponto de vista dos historiadores, enquanto “objecto histórico de pleno direito” – diz-nos Marcel Pastoureau. Existem várias razões para o fenómeno, que se prendem com dificuldades documentais, metodológicas e epistemológicas.

Estamos perante um terreno transdocumental e transdisciplinar, ou melhor, estamos perante um problema de definição: se pesquisarmos textos antigos como a Odisseia, a Bíblia, o Alcorão, as sagas islandesas, conseguimos encontrar amplas descrições do céu e do mar, que nunca referem, no entanto, o termo azul propriamente dito, utilizando em seu lugar o cor-de-vinho, o vermelho, o preto, o branco, o verde… mas nunca o azul, que parece ter sido a última cor a aparecer em todas as línguas conhecidas. A cor azul do céu e do mar foi alvo de desinteresse e desconfiança, do Neolítico até à Baixa Idade Média. E na Roma Antiga, ter olhos azuis era uma espécie de deficiência física… O excerto do poema de Catarina Costa em epígrafe abre a perplexidade – a palavra azul não existia porque não havia a correspondência com objectos concretos, definidos e visíveis?

YInMn, o novo tom de azul

Presentemente, o azul é a cor preferida de cerca de 45% de pessoas do mundo inteiro, com 111 tons diferentes nomeados, sendo que um desses tons – o novíssimo YlmNm Blue – foi criado em laboratório, acidentalmente, em 2016. Todos os tons de azul são frios e estão associados a diferentes estados emocionais e/ou espirituais: frieza, paz, depressão, ordem, monotonia, harmonia, melancolia, tranquilidade, tristeza, paciência, amabilidade, confiança. E também é uma cor ligada à ciência e tecnologia, inteligência, liberdade e progresso. Não será por acaso que as redes sociais Facebook, Twitter, Tumblr, Instagram, Linked in têm a cor azul no seu logo ou nas suas interfaces, assim como as marcas IBM, HP, Intel. Inconscientemente, a cor está ligada a tecnologia, alivia o stress e significa inteligência, liberdade e progresso; o hyperlink também tem uma explicação simples para a origem da sua cor: nas primeiras telas de computador, o azul era a cor mais escura depois do preto e uma vez consolidada esta tendência, a web também aderiu. Talvez este gosto tão enraizado pelo azul na internet seja a primeira evidência de um consciente colectivo virtual. 

Pantone, o sistema de cores mundialmente conhecido e largamente utilizado na indústria gráfica desde a década de 60, anunciou a Cor do Ano para 2020 – Classic Blue, um favorito universal, atemporal e clássico. Diz-nos Leatrice Eiseman, directora executiva do Pantone Color Institute: “Um azul evocativo sem limites do vasto e infinito céu noturno, o Pantone 19-4052 Classic Blue encoraja-nos a olhar além do óbvio para expandir o nosso pensamento; desafiando-nos a pensar mais profundamente, aumentar nossa perspectiva e abrir o fluxo de comunicação”.


Inúmeros significados atribuídos aos diferentes tons da mesma cor-luz dignificam uma ampla criatividade ligada às artes. Alguns nomes de tonalidades azuis, como por exemplo, azul-pacífico (tom de lavanda) e azul-eterno (azul intenso), correspondentes a duas espécies de rosas que ostentam pétalas nesses tons, remetem-nos para uma profusa variedade de textos criativos experimentados por poetas. Eis uma intenção de poema:

DE TÃO AZUL

Os dedos das rosas muito compridos e unidos, como membranas de asas ou barbatanas de peixes. Em ousadia de voo, as rosas caem de uma altura onde o céu está parado da cor azul-pacífico que veio do futuro da inteligência. Mergulha abruptamente nas ondas do mar, esse azul-eterno que veio do passado do esquecimento. Chamam as rosas a cor que lhes pertence, em vão. Rasgam-se as pétalas com os espinhos desse chamamento. Mas há uma rosa que ainda é azul-espanto, respira azul, canta azul. De tão azul, é uma rosa que sangra e o sangue vermelho dela em céu azul se transforma. Rosa pacífica e eterna, a fazer-se bandeira da humanidade esclarecida. De tão azul, essa paz dos teus olhos nos meus.

Adília César, Janeiro de 2020
https://issuu.com/danielpina1…/docs/algarve_informativo__232.

"Azul" de O. Olijov, para ouvir: https://youtu.be/RgCA8zTeFOQ

LÓGOS 10 - MAIO 2022 (ÍNDICE)