sábado, 8 de agosto de 2020

EU SEI LÁ - RADIOGRAFIA DE UMA CANÇÃO


Bárbara Tinoco nasceu em Lisboa em 1998. Em 2018 vimo-la nas provas cegas do The Voice Portugal, onde cativou o júri e o público cantando uma canção de sua autoria, depois de saber que não tinha superado a prova. A perseverança autodidacta da encantadora Bárbara na actividade musical a nível da composição, execução e interpretação, desde os treze anos (guitarra e canto), aliada aos actuais estudos superiores de Ciências Musicais, fazem adivinhar um futuro promissor no meio artístico. Força de vontade, estudo, talento – Bárbara Tinoco tem tudo para ser um caso de sucesso, estando já marcados dois concertos para o mês de novembro de 2021 nos míticos Coliseus dos Recreios de Lisboa e do Porto.


Bárbara Tinoco

Este é o tempo de Bárbara, que já conta com mais de sessenta e dois mil seguidores no Instagram, na sua maioria jovens. As estações de rádio passam frequentemente canções suas que eu ouço com prazer. E, todavia, há algo que me incomoda na canção Eu sei lá:

Eu sei lá, em que dia da semana vamos/ Sei lá, qual é a estação do ano/ Sei lá, talvez nem sequer queira saber/ Eu sei lá, porque dizem que estou louca/ Sei lá, já não sou quem fui sou outra/ Sei lá, pergunta-me amanhã talvez eu saiba responder.
E eu juro, eu prometo e eu faço, e eu rezo/ Mas no fim o que sobra de mim?/ E tu dizes coisas belas, histórias de telenovelas/ Mas no fim tiras mais um pouco de mim/ Então força leva mais um bocado/ Que eu não vou a nenhum lado/ Leva todo o bom que há em mim/ Que eu não fujo, eu prometo, eu perdoo e eu esqueço/ Mas no fim o que sobra de mim?
Mas tu sabes lá, das guerras que eu tenho/ Tu sabes lá, das canções que eu componho/ Tu sabes lá, talvez nem sequer queiras saber/ Mas tu sabes lá, da maneira que te amo/ Tu sabes lá, digo a todos que é engano…

Longe de ousar fazer qualquer tipo de censura à actividade criadora de Bárbara Tinoco, que nem sequer se justifica neste caso, não posso deixar de comentar a natureza do amor que envolve a protagonista numa canção que é bonita por fora, mas que se a olharmos por dentro vemos qualquer coisa que não bate certo, como uma discrepância nos valores considerados adequados para os relacionamentos humanos. Há uma mulher. Diz que ama e perdoa. Não vai a lado nenhum, apesar do seu parceiro estar a contribuir para a desconstrução fatídica do seu eu interior, uma vez que ela é capaz de dar tudo por amor e nada receber em troca. Em suma, ela dá todo o bom que possui e o parceiro vai retirando bocados. O refrão insiste no processo destrutivo da mulher e finaliza com a pergunta crucial: Mas no fim o que sobra de mim?

Olha Bárbara, eu sei lá. O que eu sei é que a violência no namoro e no casamento ainda está muito longe de ter fim. Não sendo um fenómeno implicado directamente pelas canções que ouvimos, também é verdade que Eu sei lá induz em erro e implica um estado de rendição ao inadmissível. Já se percebeu que é uma bonita canção, mas também é preciso implicar o poder de uma lírica na intervenção social, no sentido de alterar essa rota humana tão ameaçada pela violência psicológica. Mais do que fazer perguntas é preciso ter a coragem de dar as respostas. E voltamos sempre ao círculo vicioso e desgastante da natureza do amor. Na verdade, só amar não basta: é preciso amar e ser amado. É preciso cantar bem alto a reciprocidade do amor. E não permitir que alguém leve de nós, mulheres, o bocado que nos resta.


Adília César
https://issuu.com/danielpina1975/docs/algarve_informativo__260

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