sábado, 22 de fevereiro de 2020

ESCREVER POR DEFEITO


Escreve, se puderes, coisas que sejam tão improváveis como um sonho…
Ernest Hemingway


Sempre me interessou a perspectiva na arte de narrar. Lembro-me de colocar o meu pensamento num ponto alto, por exemplo no tecto de uma sala, para descrever uma cena de jantar com pessoas sentadas à volta da mesa. Devia escrever sobre todos os seus gestos e comportamentos ao mesmo tempo; procurava registar assim apenas o essencial, sem lhes ver o rosto; tudo numa única imagem. Aquelas personagens não precisavam de fisionomia, eram pessoas estranhíssimas que nem sequer se mexiam. Os meus pensamentos tomavam notas das emoções delas, das histórias que eram reveladas num burburinho que se introduzia nos elementos da minha escrita. Era uma escrita com ruído, confusa, mas tinha uma beleza pura que se enraizava nas maiores severidades da consciência humana; nesta perspectiva, eu não via pessoas, não me sentia perante o mundo delas; era um quadro que eu observava enquanto a minha escrita resvalava para outros sentidos da existência. 

 
É na escrita que o homem se observa com infinita impressão de estar a ser fragmentado. A ideia do nada está sempre presente no que se escreve. Mas é a partir do nada que imaginamos a vida vibrar, tornar-se íntima do pensamento – talvez de uma maneira em que a linguagem é a expressão que dá matéria e estrutura ao escrito. A ideia de uma cena vista de cima, como se o propósito da escrita fosse mostrar menos do que aquilo que se vê, descontamina a realidade; retira dela o que não é essencial. Assim, o pensamento corrige a forma correcta de ver; e é esta coisa imaginativa de remodelar a realidade o objectivo profundo da arte narrativa.

Como cada plano do real só é compreensível através da reconstrução da linguagem, também a forma narrativa deve representar as indecisões do pensamento em todos os seus estados de concepção iniciais. A escrita é interrogação e erro. Escrever por defeito é um protesto do espírito contra a harmonia indomável do estilo. Um pensamento exagera e torna-se complexo quando é sensível à diferença. E a diferença busca o indizível; tenta dominar o impossível; identifica aquilo que num momento parece inexprimível. A escrita começa precisamente no ponto onde o pensamento alcança um estado de motivação configurado no inconsciente. Toda a criação escrita destrói a fonte de onde provém; o mesmo é dizer: os pensamentos interrompem-se na sua continuidade com a linguagem. Não é uma recusa de pensar; nenhum abandono do que existe na nossa mente. É mais uma impressão de impotência.

Se entendermos a escrita como medida da nossa racionalidade, de um lado estão as grandes questões; e do outro as pequenas coisas que mantemos rigidamente vigiadas por natureza das nossas experiências vinculadas à própria existência. Onde quer que nos posicionemos em relação à escrita, o pensamento identifica grandeza no imensamente ínfimo; breve e claro. É neste quadro da arte narrativa que resulta uma espécie de fragmentação ou diminuição dos grandes temas universais; e, por conseguinte, a nossa perspectiva convocará o mundo examinado não como um todo comum, mas como domínio da nossa pessoalidade.

Fernando Esteves Pinto

sábado, 15 de fevereiro de 2020

PATOLOGIA DA ARROGÂNCIA


(…) pessoas que pensam que tudo lhes é devido, que o mundo existe para lhes prestar vassalagem. (…) Enfim, tudo isto é velho como o mundo, mas tem dias em que aparece cru.
Anabela Mota Ribeiro

I

Patologia da arrogância. Esta não é uma expressão frequente na linguagem comum do dia-a-dia. Mas pensando bem, há muitas pessoas que sofrem ilusões de grandeza. Esses seres “iluminados” acreditam que são famosos, ricos, inteligentes; estão convencidos que são superiores aos outros; esforçam-se por nos subjugarem à sua perfeição, são manipuladores exímios através de meios persuasivos e magnetizantes. Cuidado, essas pessoas têm, na verdade, um grande poder – o de sugar a energia alheia.

Do ponto de vista psicológico, podemos aceitar que alguns destes indivíduos sofrem de Transtorno da Personalidade Narcisista (TPN), ao sobrevalorizarem as suas próprias características na importância e singularidade, quando ao mesmo tempo não aceitam como válido o êxito pessoal ou profissional dos que os rodeiam. Pensam que tudo está mal e que eles próprios teriam a solução para os problemas da sociedade. Os arrogantes não admitem a culpa e querem manter as aparências a todo o custo. Eles são insuportáveis… No Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM – IV a patologia é caracterizada por sentimentos exagerados de autoimportância, uma necessidade excessiva de admiração aliada a uma falta de compreensão dos sentimentos dos outros.

Mas afinal, seremos todos um pouco doentios, do ponto de vista da auto-estima?


Desejamos conhecer a nossa importância como indivíduos? Sim.
Necessitamos de alguma admiração por parte dos outros? Sim.
Falhamos frequentemente perante os sentimentos alheios? Sim.
Parece que o maior desafio tem a ver com a pressuposta fronteira entre o aceitável e o patológico. E acredito que todos ultrapassamos esses limites, pelo menos de vez em quando…


II

No Jornal Expresso de 8 de Fevereiro de 2020 pode ler-se uma reportagem de Chistiana Martins, após o episódio da criação de um index que proíbe a divulgação de clássicos da literatura do Brasil nas escolas públicas do estado de Rondónia:


"Medo do escuro?" - Jair Bolsonaro

“O governo do estado de Rondônia, no extremo norte do Brasil, determinou a recolha de 43 obras literárias por considerá-las ‘conteúdo inadequado’ para as escolas da rede pública. Entre os livros censuradas estão clássicos da literatura brasileira de autores como Machado de Assis, Euclides da Cunha, Mário de Andrade, Nelson Rodrigues, Ferreira Gular, ou Rubem Fonseca, aquele que teve mais títulos excluídos: 19. (…) Também Aurélio Buarque de Holanda, autor do mais referenciado dicionário brasileiro e primo do autor e cantor Chico Buarque, tem obras retiradas do ensino público. Mas nem só autores brasileiros são censurados, também nomes universais como Franz Kafka ou Edgar Allan Poe foram rejeitados. (…) Rondónia é governado pelo coronel Marcos Rocha, seguidor da orientação ideológica de Olavo de Carvalho, considerado o mentor do Presidente Jair Bolsonaro. A ordem para retirar os livros terá vindo do secretário da Educação, Suamy Vivecananda, que classificou os livros incluídos na lista como tendo ‘conteúdos inadequados a crianças e adolescentes’.”


III

Primeiro proíbem os livros, depois queimam as ideias e… O que se seguirá é uma incógnita porque a patologia da arrogância é um fenómeno de fácil propagação e nunca será travado. Que havemos de fazer com tudo isto? Tirar a casca e comer cru? Ou devemos assumir o medo que temos do escuro, para enfrentarmos o negrume da censura e saltarmos no vazio metafórico do pensamento e da linguagem, acreditando que temos asas e conseguiremos voar?


sábado, 8 de fevereiro de 2020

CONFIGURAÇÕES


A formação da linguagem é um paciente, extenso, doloroso e, muitas vezes, desesperante caminho. O erro aparece como uma constante,
mas existe a possibilidade de ser sempre menor.
Entre um grau máximo e um grau mínimo de erro, situa-se a evolução.
Herberto Helder


Nenhuma escrita é inconsciente. Há um propósito, uma inquietação criativa, um silêncio compacto no acto de escrever. No entanto, escrever para viver é um passo superficial que sugere alguma inocência e compromisso com a melancolia profunda do pensamento. O que se cala perante o mundo é posto em relevo num entrançado de fios irreais que dão a ideia de psicanálise. A vida é demolida para de novo ser definida por sensações estimulantes e entusiasmos absolutamente inflamados. Caminhar no silêncio é uma revelação: pode libertar mas também é perturbador do ponto de vista da introspecção. Quando a escrita se torna tortura; quando participa de um sistema de cremação de sentidos plenos de falhas mentais – um esvoaçar de vozes ruidosas, ferimentos nervosos, esquadrinhamentos íntimos –, as palavras apenas consentem que falemos de nós próprios. O terror nunca se esgota: somos uns demónios aos gritos e substituímos a vida pela escrita. 


Palavras. Palavras. Uma dura guerra, vigorosa mas cheia de encantamentos; sacrificial e insuportável mas conciliadora. Por mais penetrante que seja escrever, e em parte um consolo para a mente como um remédio, procuramos a combinação perfeita entre o paraíso e o inferno. E assim, nesta harmonia ilustríssima que é um precipício – ou uma esperança muito forte? –, a vida envia um eco de sabedoria: há na escrita algo de contínua sensação de perecimento.

Sim, escondemos a morte de tudo o que não escrevemos para um dia mais tarde ser descoberto. Será ilusão mais do que complexa ausência o facto de revelarmos aos outros o que nunca existiu. Mas tentamos imaginar como é deixar escrito vividamente, sob um véu de vazio e angústia, um aceno da linguagem que seja legível em todas as épocas futuras. Escrever contra a cortina de ferro do tempo: eis uma solidão perfeita, extrovertida.

Procuramos tornar visível a escrita que nos foge, a que não produz imagens correctas; toda essa escrita entorpecida sem qualquer essência do que sentimos: vertigens abundantes que insistem em preencher as nossas indecisões; uma frase indomável que nos pede imensidão e um apurado engenho para enfrentarmos as insustentáveis circunstâncias da vida. Aqui começamos a escrever; algo se transformará racionalizando-se a si mesmo, talvez um resumo formidável que sirva de testemunho dos múltiplos sentidos que a linguagem descuidou. O pensamento é, então, apenas perspectiva. É esta regra uma questão de artifício que dá forma à escrita; contudo, há um certo tipo de forma que diverge de todas as impressões que a escrita aprofunda: a configuração que perde a sua identidade em face da linguagem.  

Fernando Esteves Pinto

sábado, 1 de fevereiro de 2020

CONTRA O ESQUECIMENTO


“Desde que comecei a desenhar a carvão, percebi que carvão e cinzas são iguais. E que esses seres humanos foram reduzidos a cinzas.”
Manfred Bockelmann*


Erdmann Schmidt, 7 anos, assassinado a 12 de Junho de 1943
  
O berço errado dos filhos do Holocausto. Talvez não haja uma injustiça maior do que a de nascer vítima da sua própria inocência e fragilidade. Crianças invocadas como impuras, vítimas das trevas da repressão. Não são mártires despojados da sua individualidade, os seus rostos não estão marcados pela fome, doença ou exaustão, os seus corpos não estão amontoados sobre outros cadáveres. Elas estão vivas e ainda enfrentam o martírio. Não sabendo o que as espera, “sabem” o que já não as espera: uma infância transfigurada pela crueldade.

O médico, de bata branca e lábios finos, prepara o equipamento fotográfico e as tabelas de registo. Recebeu ordens para documentar todo o processo experimental. Na sua frente, mais uma “praga popular” que precisava de ser eliminada para garantir a suposta “pureza do sangue alemão”: Erdmann tem 7 anos e ainda está a usar a roupa que trazia quando entrou no campo de Auschwitz. Tenta ajeitar o botão que parecia segurar um mundo de incerteza e submissão ao medo. O médico pergunta-lhe o nome e o rapaz responde “Erdmann Schmidt”, tentando mostrar-se afável e obediente. Apesar do ambiente aparentemente calmo e inócuo, o seu olhar vai ganhando uma dimensão inquiridora perante o desconhecido, abrindo-se à imaginação. O homem insiste na posição que ele deve tomar para ser fotografado, olhando-o de frente. Erdmann ainda sorri. Está tão nervoso que não consegue sequer pestanejar. Os olhos abertos, tão abertos como fontes de água começam a secar, a desvanecer a memória de outros tempos mais felizes. Erdmann já não sorri. Ele “sabe” da inevitável tragédia daquele lugar, já ouviu contos de fadas em que homens maus impossibilitavam os finais felizes.

Estou a ver-te, meu pequeno Erdmann, apesar de não estar aí contigo para te poder salvar. Tu és “o outro”, mas és o “outro-em-mim”. És tão belo, pareces emanar uma claridade própria da infância perante a tragédia irreparável. Vestes a tua melhor roupa. És todo luz de vida, mas hoje, perante o flash da máquina fotográfica, a esperança abandona-te, escurece as paredes brancas e imaculadas do espaço. Não sabes explicar porquê. Não sabes o que te farão, mas tens frio, sentes um frio palpável por dentro, levas as mãos ao peito e logo a enfermeira vem colocá-las, prontamente, onde elas estavam antes, encostadas ao teu corpo, como se fosses uma máquina. Talvez aqueles braços já não fossem os teus e por isso deixaste-os caídos, separados dos ombros, inaugurando uma nova posição aliada à força da gravidade que é agora a mãe da angústia, a tua única mãe. Os pesadelos abrem-se como desenhos da infância, apagando-se à medida que vão sendo feitos: inúteis, portanto, os pensamentos e os acontecimentos desenhados. Um conflito entre a utilidade e o propósito da existência. Os minutos passam encostados à porta, querem entrar à força para te levarem de uma vez por todas.

Perdoa-me, mas não te posso dizer que a tua carne será cortada e cosida. Que o teu sangue secará sobre as tuas dores perversas. Que chorarás o terror dos dias e das noites, o tempo eterno desse lugar. Que o teu espírito enfrentará o duro desígnio do esquecimento. Perdoa-me, meu querido Erdmann, mas não te posso dizer que serás assassinado no dia 12 de Junho de 1943.

Ninguém chorou por ti. Seria maravilhoso se pudessem fazê-lo agora, para que a tua vida tenha um desenho mais colorido. Porque se os seres humanos não se lembrarem da sua história, é porque não viveram.

Atelier de Manfred Bockelmann

Exposição «Manfred Bockelmann. Desenhar Contra o Esquecimento»

Manfred Bockelmann

A exposição especial «Manfred Bockelmann. Desenhar contra o esquecimento» foi inaugurada em Maio de 2013 no Museu Leopold de Viena e recebeu cerca de 100.000 visitantes nessa primeira exibição pública. Mostrou retratos em larga escala, feitos com carvão quebradiço sobre juta, de crianças e jovens que foram vítimas do maior genocídio do século XX, às mãos dos executantes do regime nazi. Os seus desenhos deixam-nos sem palavras, horrorizados e abalados. Manfred Bockelmann usa como modelo as fotografias tiradas pelas SS, nas quais a vida que se reflete nos olhos e rostos das inúmeras crianças assassinadas tanto nos emociona. Os retratos, de aparência “inacabada”, provocam precisamente o drama da infância interrompida, logo “inacabada”. O projecto "Drawing against oblivion” do artista austríaco Manfred Bockelmann pretende arrancar da anonimidade algumas das vítimas mais desprotegidas do maior genocídio do século XX. A ética humanística da exposição e do documentário exibido em 2015 proporciona a empatia com o espectador e torna-a uma das mais significativas para a história do Holocausto, no sentido de dar um nome e uma identidade aos rostos antes fotografados nos campos de concentração. O filme leva-nos numa viagem através de arquivos nos Estados Unidos, no campo de concentração de Auschwitz e de testemunhos de sobreviventes do Holocausto, que na altura eram crianças. A exposição e o documentário são apelos à tolerância e à humanidade, e tornam visível a única coisa que podemos fazer: tomar consciência do que aconteceu para evitar que algo semelhante se repita.

Em Portugal, por ocasião do Dia Internacional da Lembrança do Holocausto (2019) foi inaugurada no dia 31 de Janeiro, no Andar Nobre da Assembleia da República, a exposição "Desenhar contra o esquecimento". Ficou patente até 8 de Março de 2019.


Para saber mais:


sábado, 25 de janeiro de 2020

AS PALAVRAS


Como podemos nos entender (...), se nas palavras que digo coloco o sentido e o valor das coisas como se encontram dentro de mim; enquanto quem as escuta inevitavelmente as assume com o sentido e o valor que têm para si, do mundo que tem dentro de si?

Luigi Pirandello


Há palavras de morrer quando são escritas. Num poema, ou numa passagem de um romance, a agitação acumula-se, somos transportados para outro mundo, as palavras forçam o silêncio, raramente sentimos um bom estado de espírito, e o grande fantasma da linguagem ocupa a mente toda. Tudo isto põe na escrita uma consciência que nos puxa para dentro do abismo. Há palavras impuras que calam o poeta; palavras como coisas ainda sem nome, pedindo forma de viver; e ainda: palavras-guias para pensar simplesmente, sem plano nem lugar no acto de as escrever. 

Imagem: Inês Ramos

Não há palavras tão completas e inteiras como as que existem em nítido arrebatamento e revelação. O que ainda não existe é a imagem esquiva da expressão invulgar: a escrita preenche o tempo; no entanto, escrever é um acto de ausência; tão sábia solidão, que a voz do poeta é uma sombra que murmura com firmeza na luz do que está a ser criado. Sentir tanto tem a espessura do que é mais profundo; e as palavras pesam a vida toda: são essas palavras que se afiguram luminosas e previdentes, destinadas a dar uma escrita feliz às formas e planuras do mundo.

Voltemos, então, à linguagem: sempre em busca de um primeiro plano muito escarpado, muito distorcido; de uma beleza bravia, como um galope que obedece ao chicote do inconsciente e leva o poeta para longe, fragmentado e impreciso, até se confundir numa imensa escuridão. Escrever é ir assim em infinito medo de nunca mais regressar à claridade. Como luz capaz de morrer pelas palavras, o poeta também dá a vida por todas as coisas íntimas e inteiramente silenciosas.

Contudo, lúcido é o poeta que não dá um fim ao poema, porque terminar um poema é matá-lo, e um infinito silêncio não extingue o vazio que as palavras possam significar. As últimas palavras apertam o coração do poeta; deixam-no exausto, e uma força estranha e impaciente empurra-o vivamente para uma escrita inconsciente, diminuída se explicada como uma necessidade de conceber existência ao que ainda não tem vida: há palavras que passam a vida sem nunca serem escritas.

Uma tragédia de escrever sem sentir um raio de luz que cada palavra deixa no pensamento. É então no pensamento que as palavras se pronunciam em falso efeito de presença, sugerindo apenas a sua grandeza de expressão, o seu desejo insaciável de tomar parte do escrito: daí o bloqueio impiedoso que certas palavras impõem ao poeta, e este continuará sempre a procurar a tragédia nos rudimentos da linguagem. A pressão, a intensidade – escrevendo pensa-se todas as coisas. E tudo explode assim num acidente de emoções e conflitos.

Porque na verdade, há palavras que deixam no poeta uma sensação de demência irreparável. A palavra tortuosa, delirante, quebra o pensamento. Também é verdade que as pequenas coisas que caem do mundo deixam na escrita vestígios de lucidez, mas aquele que escreve em grande esforço de sentido e significado é assombrosamente agrilhoado à linguagem até ficar à beira do aniquilamento absoluto. Por isso mesmo, é terrível o carácter negativo que a palavra transmite quando é escrita em plena linguagem de poesia. Mas a palavra foi dada ao poeta para expressar os sentidos inquietos, mais do que revelar a dimensão da sua presença.

Fernando Esteves Pinto

ESCREVER POR DEFEITO

Escreve, se puderes, coisas que sejam tão improváveis como um sonho… Ernest Hemingway Sempre me interessou a perspectiva na arte...