sábado, 14 de dezembro de 2019

OS TEUS OLHOS, ISABEL*


Ler os livros de Isabel da Nóbrega é a única forma de lhe fazer justiça. É vê-la como ela se contou, e não como outros, por amor, por desejo de renascimento, por mágoa ou por leviandade a contaram. Esses outros sobre os quais ela escreveu: “Oh, esta alegria de não estarmos sós.”

Joana Emídio Marques (Observador, 30 de Maio de 2015)

As musas da literatura portuguesa têm sido raras na vida dos escritores e poetas. E são, provavelmente, uma espécie em vias de extinção. Hoje, mais do que nunca, as estrelas sedutoras que suscitam inveja e fascínio são outras: jogadores de futebol, personagens das telenovelas e pouco mais.


Isabel da Nóbrega

Mas os teus olhos no teu belo rosto Isabel, tão admirados por João Gaspar Simões e José Saramago. Serão os teus olhos como os de Medusa, a górgona mitológica que petrifica quem os olha, na sugestão deixada por João Gaspar Simões? E como esquecer os teus olhos mágicos que parecem perscrutar as almas por dentro dos corpos, recordando Blimunda no romance Memorial do Convento, escrito por José Saramago?

Eis aqui apresentados dois homens de peso na literatura portuguesa, dois companheiros entrelaçados na tua vida: João Gaspar Simões, entre 1954 e 1968; e José Saramago, entre 1970 e 1986. E queria dizer-te, Isabel, mas que homens portentosos eles foram no cenário literário e no teatro tua vida… João Gaspar Simões (1903-1987) possui uma obra imensa nos campos do romance, teatro, biografia e história literária, ensaio e crítica literária, edição e estudos introdutórios, tradução. É inegável a sua importância, por exemplo, enquanto primeiro biógrafo e primeiro editor (com Luís de Montalvor) de Fernando Pessoa. José Saramago (1922-2010), escritor galardoado com o Prémio Nobel da Literatura em 1998, entre outros prémios, e escreveu romances, crónicas, peças teatrais, contos, poesia, diários e memórias, literatura para a infância e literatura de viagens.

E escreve João Gaspar Simões, implicitamente, no romance As Mãos e as Luvas publicado em 1975, pouco depois de tu, Isabel, o teres abandonado (na altura, já vivias com o ainda desconhecido jornalista e tradutor José Saramago): “Sim, essa arma, digo bem, que ela sabia constituir, no arsenal das suas seduções, a mais mortífera das suas armas: os olhos, precisamente.” Neste livro, surge a personagem Tininha, uma mulher promíscua, colecionadora de amores fugazes. O moralismo expresso no romance, alegadamente pleno de referências maldosas contra José Saramago e Isabel da Nóbrega, evidencia o quanto João Gaspar Simões estaria incomodado com a situação. Tu sabias, Isabel, mas nunca falaste em público sobre estas referências à tua pessoa.



E escreve José Saramago, explicitamente, na dedicatória da primeira edição do romance Memorial do Convento, publicado em 1982: “À Isabel, porque nada se perde ou repete, porque tudo cria e renova.” Palavras densas, sentidas e consentidas.  Também a personagem principal Blimunda tem os teus lindos olhos, Isabel, e o nome que escolheste para ela. Mas mais tarde, José Saramago apagará o teu nome da dedicatória, dedicando o mesmo romance a outra mulher. Tu sabias, Isabel, mas nunca falaste em público sobre esta tentativa injusta de obliteração, apesar de ele ter expressado publicamente a importância que tiveste no desenvolvimento de José Saramago enquanto escritor: “Esta mulher pareceu-me mais do que minha mãe.”


A tua vida é um almofariz perpétuo que pisa, mói, reduz. Assim é o culto do amor aos mortos, ao amor negro, aos mortos negros num desprezado eco, como uma abstracção simples da luz, uma ausência. Não permitas que eles se vão embora dessa incompreensão escura, do negrume. A mortalha embebida no perfume das especiarias faz de conta que conhece a decoração do lugar e uiva. Energia dos vivos, mais aguda do que a mágoa. Parece um lamento nas frestas das nuvens, um caminho doce para carruagens douradas. Ecos de outros tempos e outras vidas. Canela e anis estrelado, memória e sonho, cânfora. Imagem nítida de todas as partículas fúnebres que bebem o rio de especiarias dos corações deles ao teu pensamento.

Já morreram os teus homens, Isabel. As infâmias plantadas nos seus escritos não deram fruto, eram sementes de desilusão, finitas e arrogantes. O tempo dessas sementes voltou de novo à casca do passado e por lá secaram. Pois a tua maior arma é um misto de amor-próprio e inteligência, uma liquidez verde derramada ao fundo dos teus olhos, uma marca d’água, uma aguarela. Ah, mas os teus olhos, Isabel, os teus olhos ainda vivos cravados nos nossos. Fica tranquila, ainda não foste esquecida. Estamos aqui, dispostos a ler-te.

Isabel da Nóbrega na capa da revista TABU em 2009

*Isabel da Nóbrega (pseudónimo de Maria Teresa Guerra Bastos Gonçalves) é uma escritora portuguesa. Nasceu em Lisboa a 26 de Junho de 1925 (tem 94 anos). Trabalhou em teatro, rádio e televisão, escreveu milhares de crónicas. Ganhou vários prémios, entre os quais o Prémio de Consagração de Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores (2008) e o Prémio Femina por Mérito na Literatura (2011). Foi ainda condecorada com a Grande-Oficial da Ordem do Mérito (2000) e a Grande-Oficial da Ordem da Liberdade (2011).

Adília César
https://issuu.com/danielpina1…/docs/algarve_informativo__230

sábado, 19 de outubro de 2019

DA FUTILIDADE DOS POETAS



Muitos dias de silêncio são necessários
para recuperar da futilidade das palavras.


Wu Hsin

Fotografia surrealista de Fernando Lemos

Gosto do silêncio e sei que é difícil escutar o silêncio em mim. O escritor e explorador Erling Kagge também o aprecia e sugere que o silêncio é o verdadeiro luxo da contemporaneidade: um tesouro a descobrir.

Também gosto das palavras e sei que temos todas as palavras pensadas, ditas e escritas em nós. Comunicamos através de um discurso que reflecte o ensimesmamento da nossa racionalidade, ou seja, o idioma do nosso pensamento, a necessidade de comunicar algo aos outros, esse mundo interior e privado. Comuniquemos, pois, em liberdade, através dos diferentes modos de expressão que temos ao dispor. Ora, a mente ocupa-se do processamento contínuo dos pensamentos, não sendo possível não pensar. Com os pensamentos e pelos pensamentos, a nossa mente aceita que o mundo onde vivemos é criado por nós: os desejos íntimos, a satisfação desses desejos, o medo de sucumbir, a vergonha de sermos julgados pelos outros, ou, pelo contrário, a cegueira face a todo este processo de escrutínio vital.

No caso do escritor, a paisagem mental alterna entre planos paralelos de verdade e mentira, ou melhor dizendo e de uma forma mais justa, a versão discursiva que chega ao leitor é a vida ficcionada do escritor: o romance, o conto, o poema. Saberá o escritor que é escritor? Conseguirá ele ver e escrever algo que os outros não tenham ainda visto nem escrito? E qual é a percepção dos leitores em relação às mesmas assumpções de valor intrínseco do criador?

Muitos escritores reflectem sobre a escrita, tentando esclarecer as suas próprias perplexidades. Por exemplo, Hjalmar Söderberg (1869-1941) citava os poetas como instrumentos com que a época toca a sua melodia, as harpas eólicas com que o vento canta (in O Doutor Glas). Também Agustina Bessa-Luís (1922-2019) alude à poesia e aos poetas: a poesia, não acredito que seja esse estado nervoso tão doente e agitado. Alguns poetas parece que lhes arrancam os dentes ou deliram numa meditação tão assombrosa com coisas que nos descrevem o amor e a morte, mas não sabemos se se lhes parecem (in Dicionário Imperfeito).

Não sei a que poetas ambos se referiam, mas é bem verdade que estes seres criativos – os poetas – parecem pessoas estranhas, distanciadas da sua época e aniquiladas pela boçalidade dos dias, pela incompreensão e pela indiferença dos outros que não os entendem nem admiram. Acredito que pelo menos alguns deles sejam poetas genuínos. Também existe outro tipo de criaturas: as que se definem como poetas, de ego superlativo, maiores, melhores, excelentes, indigestos, fúteis. São tantos os poetas, tantos os poemas, tantos os adereços, são tantas as festas, tantas as gratulações, tantas as quimeras. Tantos os vazios: esses intervalos entre as palavras são o que eles escrevem melhor.

Sim, disseram-te que escreveste um poema bonito. Mas repara: essa beleza não é fundamental, não vem de dentro nem se vê por fora. A beleza é um estado e não uma característica, é uma condição do ser, da expressão de qualquer coisa estética muito ampla. A imagem do belo, essa misteriosa matriz. Não sou eu, não és tu, é a sintonia peculiar da abstracção dessa palavra, uma imagem com múltiplos sentidos visíveis e invisíveis, uma oração quase sagrada. Que belo é alcançar o inalcançável... A melancolia do papel riscado por cada verso. Mas apesar de tudo o que te é dado ver e sentir, por favor entende de uma vez por todas que um poema bonito não faz um grande poeta. Escrever um poema não é bordar uma toalha de mesa. E dar um título à minha tragédia apenas evidenciará o óbvio. Na verdade, ninguém quer saber do escuro ou dos esqueletos que dançam nos cantos da casa. O melhor será varrer os despojos para debaixo do tapete: alfinetes, vozes de crianças, flores de compaixão que sabem a chamas. Ninguém os verá, mas eu sei que os fantasmas estão ali, cobertos com fatiotas de ironia. E no apogeu da festa, tocar pequenos clarins de dor para anotar na consciência uma doce tristeza na medida justa. Amanhã é um outro dia que poderá não chegar. É preciso preservar o manuscrito ainda inédito: isso é o poema, mesmo que eu ou tu lhe chamemos outro nome. E se eu não for capaz de o escrever, recolher-me-ei a pensamentos mais profundos, porque a futilidade é uma doença e muitos dias de silêncio serão necessários para recuperar da futilidade das minhas e das tuas palavras.

Adília César

sábado, 5 de outubro de 2019

DA POESIA NA INFÂNCIA


Anna é linda. Ela é linda e isso basta-me.
O sol bate na casa amarela dela, é quase como um sinal de Deus.
(Jimmy, 5 anos de idade)


Caligrafia de Fep

O pequeno Jimmy deambula pelo espaço. É visível um vazio expressivo sinistro, um vagar anestesiado, enquanto recita um poema. Lisa Spinelli, a sua educadora de infância, escreve de forma compulsiva cada um dos versos, ditos numa linha melódica de uma nota só, num caderno vagamente destroçado que carrega consigo para toda a parte. Nesse caderno está escrevinhada toda a ânsia de Lisa em ser poetisa: insinuações de uma escrita pretensamente poética que não convence ninguém. Mas os poemas de Jimmy são como pequenas luzes que dão vida a esse caderno e a mulher torna-se obsessiva na sua missão de salvar o talentoso menino da banalidade da vida que o espera: crescer, tornar-se adulto, ganhar a vida, ter uma família; e depois morrer, como de costume. Lisa não consegue submeter-se aos valores práticos da sociedade em que ambos se inserem e de um modo doentio organiza uma sequência de eventos manipulatórios em torno das pessoas com quem convive, inclusive a família de Jimmy, para salvar a genialidade rara da criança, a qualquer custo, uma vez que ela acredita que a sociedade tudo fará para a esmagar. A obsessão vai demasiado longe e Lisa rapta Jimmy, levando-o a passar algum tempo num ambiente de comunhão com a natureza, junto a um lago, numa tentativa de incentivar a criação poética do menino. Mas ele fica assustado e só quer voltar para casa. Quando a polícia chega para o resgatar, Jimmy é colocado sozinho no carro de patrulha e as últimas palavras que se ouvem são dele:
- Tenho um poema. Tenho um poema! Mas ninguém ouve o seu poema. É o princípio do fim preconizado por Lisa.

- Que belo argumento para um filme, de uma complexidade psicológica vibrante, diriam os leitores desta crónica. De facto, a ideia deste argumento pertence a Sara Colangelo que realizou o filme The Kindergarten Teacher, pelo qual recebeu o prémio de melhor realização no Festival de Sundance, fazendo também parte da selecção oficial do Festival de Toronto. Foi estreado em Portugal em 2019 e o Cineclube de Faro exibiu-o no dia 1 de Outubro. A viagem perigosa, desesperada e metafórica, vivenciada pelos dois protagonistas, é uma chamada de atenção sobre as relações de poder do adulto educador para com a criança educanda, com fronteiras éticas sempre difíceis de definir. Do ponto de vista de Lisa, a frustração leva-a a executar sucessivos rituais obsessivos que a conduzirão, muito provavelmente e durante um tempo considerável, a uma penitenciária. Do meu ponto de vista de educadora de infância que desenvolve um projecto pedagógico de sensibilização à poesia, recuso submeter-me a angústias de antecipação dos destinos artísticos das crianças que acolho todos os dias. Vi o filme através dos olhos de uma educadora que privilegia a ambiência pedagógica proporcionadora de desenvolvimento artístico precoce nas crianças (função que exerço há mais de 30 anos). E depois, deixo-as ir: as crianças, as luzes poéticas, as raras genialidades. Talvez de vez em quando consiga despertar nessa grande infância que acolho há tanto tempo uma centelha potencialmente estética e isso basta-me.



O pequeno Jimmy tinha um tio que lhe lia poemas, o que foi crucial, decerto, para a criação dos seus versos. Ora Jimmy não simboliza a criança comum e a argumentista confere a essa personagem uma força e uma maturidade que raramente se vêem numa criança de 5 anos. Na verdade, os poemas ditos ao longo do filme foram na realidade escritos por três adultos - Kaveh Akbar, Dominique Townsend e Ocean Vuong – considerados grandes poetas contemporâneos. Mas o filme deixa-nos uma pista importante para que a poesia possa fazer parte da vida de qualquer pessoa: é imperioso guardar os versos da infância na pequena concha das mãos.

Deixo-vos um poema pensado e dito pelo Tiago P. de 4 anos, em contexto de jardim de infância. É um poema de intervenção social, de afirmação do eu poético e intensamente humano. A profundidade da reflexão surpreendeu-me pela simplicidade, pelo efeito emocional e estético que provocou em mim (não é essa uma das funções da poesia, a de assumir uma voz provocadora?). Hoje, o Tiago tem 7 anos e já não pensa em poesia. Os contextos familiar e escolar que o acolhem tendem a não valorizar esse tipo de competência. Mas este poema saiu de dentro dele, pertence-lhe e isso basta-me:

Santiago rima com Tiago.
Eu gosto dos nossos nomes que são poemas.
O meu poema é mais pequenino.
Mas eu sou mais do que o meu nome.
Sou mais do que um som: sou o Tiago.
(Tiago P., 4 anos)

Adília César
in https://issuu.com/danielpina1975/docs/algarve_informativo__221

Trailer do filme A Educadora de Infância:
https://www.youtube.com/watch?v=nRYKNn2FcmE

sábado, 21 de setembro de 2019

A (IN)VISIBILIDADE DO ESSENCIAL


«Agora só vejo o que me interessa, e certas coisas,
as que são realmente importantes, 
vejo-as melhor de olhos fechados.»
Silvina Jóia*

Creio que Antoine de Saint-Exupéry, numa bela e profunda linha de escrita do seu pequeno-grande livro O Principezinho, também já tinha dito algo muito semelhante, em 1943, pela voz da Raposa, quando esta conversa com o Principezinho:

«Só se vê com o coração. O essencial é invisível aos olhos.»

O Antoine e a Silvina, sem nunca se terem encontrado, tiveram a mesma percepção: os seres humanos devem guiar-se pelos afectos e agir de acordo com os seus sentimentos. A minha crónica podia ficar por aqui, fiel à corrente da micronarrativa, que tanto interesse tem vindo a provocar os leitores desde há algum tempo, cansados de ler palavras inúteis. Podia, mas preciso de expressar a minha própria percepção.

Na verdade, as nossas vidas estão repletas de coisas inúteis, de palavras inúteis; é na senda da optimização de tempo e esforço que procuramos a apropriação possível do mundo que nos rodeia através do pouco, porque menos pode ser mais. É uma das raras verdades em que acredito. E imagino que passeio pela rua como se fosse uma discreta imagem a preto e branco, a deslizar ou a sobrevoar o chão a pouca altura, envolvendo a categoria diáfana do tempo. No meio de tanta cor, tanto ruído, tanta inquietação, a serenidade de uma fina linha de equilíbrio poderia ser uma boa definição para "vida". Não a vida enquanto construtora de instantes violentos e banais, os quais recuso.

Foi a minha mãe que me ensinou a ver o invisível, o essencial, quando ambas nos confrontámos com as suas dificuldades de visão. Conversámos sobre a inevitável mudança de hábitos, a reconstrução das rotinas do dia, a adaptação àquilo que é absolutamente essencial. De facto, desde há cerca de um ano, ela já não vê como antes: não lê os livros nem as legendas dos filmes, não distingue as feições das pessoas com quem se cruza na rua. Mas não está muito preocupada. Diz que sente uma espécie de serenidade imposta pelo carácter agora invisível das coisas outrora familiares.

A mãe (Silvina Jóia) e a filha (Adília César)

O que a minha mãe confidenciou fez-me repensar sobre a dicotomia entre a visibilidade e a invisibilidade do essencial que, à partida, não é tão linear como parece. Fechei os olhos, vi os meus sentimentos e as minhas convicções, não a partir da discussão acalorada em discurso directo com outra pessoa, mas através do pensamento introspectivo e silencioso, até atingir um nível mais elevado de conhecimento pessoal e relacional com o universo. Há quem valorize este processo e lhe chame meditação. Há quem, pelo contrário, o desvalorize e lhe chame solidão. Há também quem ande pelo mundo de olhos abertos e cegos na sua desumanidade, sem compreender o seu papel particular no todo.

Ao virar a página, tive a minha epifania: afinal, somos versos do mesmo poema e podemos fechar os olhos, vendo o essencial com o coração. Sim, escrever amor em todas as páginas.

*Silvina Jóia é o nome da minha mãe, o primeiro verso do meu poema.

Adília César
https://issuu.com/danielpina1…/docs/algarve_informativo__219

sábado, 31 de agosto de 2019

LINDO, LINDO, ESTE TÍTULO QUE TE DOU


 Ela diz que eu fui um caso muito sério
Mas eu só sei que há nisso algo de anormal
Havia um tempo, um olhar, um sorrir, um começo
Mas agora tudo perdeu seu brilho.
Na minha vida só houve um abraço como o teu
Um sonho, um livro, uma aventura sem igual
Linda, linda, esta balada que te dou.

Armando Gama

A 4 de Março de 1983, no Coliseu do Porto, mil e novecentos espectadores viram Armando Gama, ao vivo, vencer o Festival RTP da Canção com “Esta Balada Que Te Dou”, da qual ele próprio foi o autor. A apresentar o evento, transmitido em directo pela televisão, Eládio Clímaco e a estreante Valentina Torres; as audiências televisivas superaram os dez mil espectadores. Este Festival da Canção deu que falar, por um lado porque a canção vencedora não era uma das favoritas, e, por outro, porque teve início a história de amor entre Armando Gama e Valentina Torres. O casal viria a protagonizar uma dupla musical de sucesso, principalmente nos anos 90 e também um longo casamento de vinte e seis anos preenchido com muitas baladas e actuações ao vivo. O casamento terminou após vinte e seis anos, apesar de tantas lindas baladas partilhadas pelos dois.


Valentina Torres e Armando Gama

Um facto curioso sobre esta balada foi recordado por Rui Cardoso Martins na sua crónica na Antena 1 de 28 de Fevereiro do ano passado: Armando Gama ter-se-ia inspirado numa outra canção para compor a sua mediática vencedora, transformando “steel crazzy, after all this years” de Paul Simon (datada de 1975) numa “linda, linda, esta balada que te dou”! Na época não havia internet e ninguém se teria apercebido das fortes coincidências melódicas, nem em Portugal, nem em Munique, mesmo quando Armando Gama levou a sua linda balada – uma aventura sem igual – ao Festival Eurovisão da Canção, a 23 de Abril de 1983.

Numa das minhas frequentes visitas a espaços onde se vendem livros, observei discretamente um senhor de cerca de 50 anos interessado num livro intitulado “Um Amor Imenso”; parecendo hesitar, largou-o e pegou “Uma Prova de Amor”; não estando ainda satisfeito, agarrou-se ao “Faz-me Ficar”, com um semblante angustiado. Com os três livros dispostos em cima da bancada, o homem observou as capas demoradamente (nunca lendo as contracapas, as badanas ou o conteúdo), a fim de tomar uma decisão sobre o livro que iria comprar, estabelecendo as devidas relações com o destinatário ou a destinatária. A sua história poderia ser a seguinte: “Armando”, um homem prestes a comemorar as Bodas de Prata do seu então precário casamento, na ânsia de fazer renascer o amor perdido algures ao longo dos vinte e cinco anos naquela linha do tempo da sua vida matrimonial, compra um livro pelo título, na tentativa de fazer passar ao destinatário ou à destinatária uma mensagem inequívoca: eu amo-te e quero salvar o nosso casamento, por favor, diz que também me amas e faz-me ficar.

O “Armando” acabou por levar os três livros, o que corrobora a minha tese hipotética: na verdade, o homem tinha um problema sério para resolver e não quis deixar nada ao acaso. Enquanto ele se encaminhava para a caixa de pagamento e pedia um embrulho de presente, eu fazia um exercício de imaginação, no qual o jogo ficcional me encaminhou até uma espécie de epifania, uma conclusão que, apesar de empírica, ia ao encontro de outras observações similares que tenho feito na mesma livraria: há pessoas que compram os livros apenas pela mensagem do título, sem se preocuparem com o autor ou sequer com o conteúdo narrativo, concretizando uma espécie de auto-ajuda que envolve duas pessoas muito especiais, a que oferece e a presenteada, ou seja, os armandos e as valentinas em processo de remediação amorosa. Dei-me conta que este raciocínio também serviria para diferentes tipos de desejos. Por exemplo, qual é o objectivo de oferecer a outra pessoa o livro “Viver o Sexo Com Prazer”? Ou “O Novo Kamasutra Ilustrado”? Ou ainda “A Bíblia do Prazer”? É bastante óbvio, certo? É interesse reflectir e aceitar que é possível que o escritor (e por vezes o próprio editor) pense maduramente sobre o título do seu livro e também sobre o público a que o livro se destina, no sentido de potenciar as vendas de exemplares. Afinal, as bancadas dos livros são também palcos mútuos de esperança: “lindo, lindo, este título que te dou”.

Mais tarde, enquanto bebia uma água fresca na esplanada e lia o livro de poesia que tinha trazido de casa, “O Livro das Tréguas” de Lídia Jorge, vi o senhor “Armando” passar com um grande ramo de flores, as tréguas perfumadas da esperança. Muito bem senhor “Armando”, vale sempre a pena tentar salvar o amor, usa todos os teus trunfos. Eu usei os meus e venci.

Adília César

terça-feira, 27 de agosto de 2019

BIBLIOTECA DO TEMPO Nº 5

Colaboram neste número: António Carlos Cortez, António Ferra, Francisco José Craveiro de Carvalho, Guilherme Pinto, Helder Teixeira, Izidro Alves, João Luís Barreto Guimarães, José Pascoal, Luis Alberto de Cuenca, Maria de Fátima Rocheta Bastos, Maria José Santos, Margarida Vale de Gato, Ocean Vuong, Rui Diniz Monteiro, Rute Castro, Sara F. Costa, Sandra Costa, Sérgio Ninguém.

Direcção editorial: Adília César | Fernando Esteves Pinto
Imagem de capa e ilustrações: Guilherme Pinto
Design e concepção gráfica: Inês Ramos
 
Géneros: conto * ensaio * entrevista * poesia * poesia traduzida (por Francisco José Craveiro de Carvalho) * ilustração

Formato: 21/14,5 cm | Nº págs: 202

ENCOMENDAS:
logosbibliotecadotempo@gmail.com
ou por mensagem privada para Adília César e Fernando Esteves Pinto
(9 € com portes incluídos em Portugal Continental)


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sábado, 24 de agosto de 2019

BESTSELLERS E ASTERISCOS


Aquilo que passa por sabedoria muitas vezes não é mais do que as ideias disparatadas do nosso tempo.

James M. Russell

Quando estou de férias, tenho mais tempo para dedicar à leitura e chego a ser uma compradora compulsiva de livros e nesse sentido, visito regularmente livrarias e alfarrabistas. No entanto, leio para conhecer e não propriamente para me distrair. Assim, acredito que devo ter todo o cuidado em relação aos livros pelos quais me interesso: será que aquele livro em particular que tenho entre mãos vale o meu dinheiro e o meu tempo?

Top de Vendas de livros na FNAC (Agosto de 2019)

Há poucos dias visitei o espaço Fnac da minha cidade. À entrada, o escaparate dos livros top de vendas da semana chamou por mim, estranhamente, o que não é comum; de um modo geral, as escolhas que faço têm a ver com outro tipo de critérios, mais pessoais, críticos, e até desconfiados em relação às sugestões “da moda”. No 1º lugar deste podium literário, há mais de 500 dias e com cerca de 90 mil exemplares vendidos, está o bestseller do escritor americano Mark Manson e o primeiro livro deste autor a ser editado em Portugal – “A arte subtil de dizer que se f*da” – o qual parece ter inaugurado, no panorama literário internacional, uma moda de livros mais ou menos de auto-ajuda, com invocações histórico-sociológicas e apelos filosóficos: os que têm a palavra f no título e um número estonteante de palavrões espalhados pelo texto. Ao longo de quatro capítulos recheados de humor, experiências de vida e palavrões em todas as páginas, através de um “estilo brutalmente honesto” (segundo uma nota do editor), o autor pretende ajudar o leitor a lidar com a adversidade, a conhecer os seus limites e a reconhecer receios, falhas e incertezas, para começar a enfrentar as verdades dolorosas e focar-se no que realmente é importante. O livro apresenta “uma abordagem contraintuitiva para viver uma vida melhor”. Afinal, no dialecto de Mark Manson, “Que se fod*” quer apenas dizer “Ignorar o que não interessa na vida”.  E dá as suas instruções bem focadas num discurso sem desperdícios linguísticos de estilo ou de estética, carregado de lugares comuns, através de “palpites”: “não tente”, porque “a felicidade é um problema” e “você não é especial”, aprenda comigo “o valor do sofrimento” de uma vez por todas; por outro lado “estamos sempre a escolher”, tendo em conta que “você está errado acerca de tudo” e “o fracasso é o caminho para a frente”, não esquecendo “a importância de dizer não”, porque “…e depois morremos”.  Pronto. Mark Manson aponta problemas do cidadão comum e quer ensinar-nos a viver, através de uma narrativa popularucha que se assemelha a uma filosofia quotidiana de consolo. Mas as suas directrizes consolam quem?

Diz-nos o mesmo autor: “Vivemos numa época estranha. Apesar de termos mais liberdade, saúde e riqueza do que em qualquer outra época da história, tudo à nossa volta parece terrivelmente f*dido: aquecimento global, queda de governos, economias em colapso e todos permanentemente ofendidos nas redes sociais. Temos acesso a tecnologia, a educação e a formas de comunicar que os nossos antepassados nem sequer imaginavam, mas ainda assim sentimos uma esmagadora desesperança. Afinal, o que é que se passa connosco?” Esta é a grande questão patente no segundo livro de Mark Manson editado em Portugal, “Está tudo f*dido”, que já se posiciona no quinto lugar do mesmo top de vendas. Aqui, a abordagem é “contraintuitiva à esperança”, chegando mesmo o editor a sugerir que é “um livro de leitura obrigatória que nem todos merecemos, mas de que todos precisamos”! Realmente, nem todos merecemos.

Sim, vivemos numa época estranha. Temos tanto conhecimento relevante nos livros ao nosso dispor, mas é a espuma da literatura que atrai as moscas. Como se não nos bastasse estas duas subtilezas, ainda temos no escaparate, em nono lugar, um livro escrito pelo coach de desenvolvimento pessoal Gary John Bishop, outro bestseller mundial e nacional: o “Não te f*das” trata o leitor por “tu”, apresenta-se como “um verdadeiro manifesto para uma mudança real e significativa, e avisa que “se és do tipo que se ofende facilmente, é melhor não continuares a ler: este livro não é para ti.” As sinopses dos livros de filosofia de asterisco estão tão bem escritas, que são como sinais vermelhos de disfunção emocional, e ainda bem: esta filosofia quotidiana não me serve de consolo e o estilo demasiado coloquial com palavrões à mistura também não! Agora vou ler Friedrich Nietzsche, Santo Agostinho, David Hume, Ludwig Wittgenstein, São Tomás de Aquino, Georg Hegel, René Descartes, Platão, Immanuel Kant e Aristóteles. Apetece-me saber como falava Zaratustra, conhecer a Cidade de Deus, investigar os princípios da moral, a suma teológica, a fenomenologia do espírito, encontrar um discurso do método, mergulhar na apologia, criticar a razão pura e invocar a ética a Nicómaco. Esta sim, é filosofia consoladora para o meu quotidiano e ensina-me a viver melhor sem asteriscos. 

Adília César
https://issuu.com/danielpina1975/docs/algarve_informativo__216

sábado, 17 de agosto de 2019

DESAGOSTO


Num mundo realmente às avessas, o verdadeiro é um momento do falso.

 (Guy Debord, in “A Sociedade do Espectáculo”, 1967)


Kiss Andrea © 2019

 Agosto é o mês menos importante das nossas vidas, nele perdemos o ensimesmamento rotineiro, a circunstância confortável de outros meses de calendário. O sol arde no fogo, nos olhos, nas serras, nas cidades. Apesar das paredes altas que seguram o mundo, os pés arrastam a gravidade emocional da expectativa de descanso forçado. Tantos modos de acontecer, tanto ruído, tanta febre, tantas celebridades, tantas feiras e festivais, tanta gente concentrada no mesmo desejo de felicidade efémera: a antevisão dos eventos, as pequenas tragédias que se transformam num ápice em grandes desastres. Agosto é o espaço emocional de desconforto, é um tempo para sobreviver e depois esquecer.

Estamos todos juntos, estamos todos de costas voltadas para não nos vermos, mas envergamos, gulosos, as máscaras de quem queríamos ser. Agosto congestiona as estradas, as esplanadas, as expectativas, a filosofia do quotidiano; contudo, se todos os desejos são precários, não é menos verdadeira a certeza de que as férias chegarão rapidamente ao seu fim. Existe uma circularidade nos elementos que compõem os nossos dias e noites, as horas reconduzidas ao seu lado excessivo e… inútil. Olhamos em volta e percebe-se que os sentidos lato e específico da produção de bens e serviços (não só em agosto, mas durante todo o ano), é a procura obrigatória de horizontes substituíveis. E nós obedecemos.

A substância das relações sociais que ligam as pessoas umas às outras modificou-se, passando a ser menos autêntica, especulativa e ficcional: simulada. Temos prova desta premissa na encenação do teatro da vida – a irrealidade virtual – como uma representação dessa mesma vida da qual fomos expropriados na omnipresença da cultura do estrelato, onde as celebridades se pavoneiam perante os nossos olhares de cobiça. E nós, os pobres espectadores, somos meros figurantes nos cenários de agosto e vivemos as nossas vidas em segunda mão. A cultura do excesso, do espectáculo, conduz a um grande vazio na ruptura com a nossa essência humana: a emoção, o pensamento e a acção enfiados no buraco sem fim da lógica do consumo, a disciplina do parecer a qualquer preço. O “ser pessoa” é agora o processo quantificador na busca da uma miragem, o “parecer ser outra pessoa” que acumula. O “ser” é “ter”: mais coisas, mais experiências, a um ritmo avassalador e à imagem de um deus qualquer com os pés enfiados nuns chinelos.

As personagens construídas com vista ao engodo global e com as quais somos levados a identificar-nos, não são, elas próprias, um fragmento dessa enorme miragem que é a escalada social da vida moderna? Até as nossas crianças sonham com a fama, identificam-se diariamente com as personagens célebres das séries que visualizam nos écrans. Exigem ser como elas, querem possuir os adereços que compõem a personagem que admiram. Imitam, apropriam-se, iludem-se. E depois substituem por outra qualquer, mais apelativa ou mais presente, por via do espectáculo que lhes é oferecido através da publicidade, da nova série produzida precisamente para esse efeito: assim se educa para a omnipresença de um novo mundo virtual e infinitamente descartável, para sermos dependentes de uma imagem criada não à nossa própria imagem, mas de acordo com a lógica da disciplina económica e a-politizada, tão perigosa porque não a compreendemos.

Agosto até pode ser um mês de calendário como outro qualquer, mas também é o “desagosto” da vida, o tempo dito livre que acaba por não nos dar nenhuma liberdade de pensamento-acção, pois andamos distraídos, queremos andar entretidos. Pelo contrário, é um sujeito colaborador e pactuante no enorme cinismo da manipulação colectiva num mundo saturado de imagens: «tudo o que aparece é bom e tudo o que é bom aparece», disse Guy Debord, preconizando que nós, os espectadores, ao não encontrarmos o que desejamos, desejamos o que encontramos. Cuidado, muito cuidado, o perigo apenas espreitava, mas agora vive entre nós, é o elo servil e invisível que nos liga e aprisiona.

Adília César

sábado, 10 de agosto de 2019

PRONTO-A-DESPIR


Um tipo atípico e, no entanto, cheio de arquétipos.
Um sonho das superfícies. Moldável. Serve de moldura.
Aproximem-se. O vosso photomaton também cabe aqui.

Golgona Anghel

Ainda o mês de agosto do meu descontentamento. Ano após ano, agosto volta e traz com ele os exageros estilísticos. Claro, o mês dourado da estação veranil serve para os dois lados: o que tem de bom tem de mau, mas não é essa dicotomia que pretendo discutir aqui. E não nos debrucemos sobre legislação em vigor relativamente ao decoro do traje, pois essa matéria é, pela certa, areia movediça…

Arte de Isabel Afonso

No Algarve, o sol arrebatador implica roupas leves e frescas, adereços coloridos, óculos escuros, chapéus de palha e os clássicos chinelos de enfiar nos pés. Não podemos esquecer os decotes e as transparências para completar a grande onda algarvia da moda. Neste sentido, a moda equilibra-se no fio da bainha e cada pessoa sai à rua exibindo um-estilo-que-não-é-bem-um-estilo. Observando com atenção, todos podemos ser, afinal, estilistas inovadores, de acordo com as conjugações possíveis ou impossíveis entre peças, imbuídos do espírito crítico de que somos capazes no exercício do direito à liberdade de expressão.  No campo traiçoeiro da moda, os homens, de um modo geral, são mais discretos: t-shirt, calção, óculos escuros, chinelos, boné; às vezes descalços, outras de tronco nu. Já as mulheres, seres complexos e de extremo bom ou mau gosto, dependendo do ponto de vista do apreciador com quem se cruzam, são capazes de assumir uma predisposição intrínseca para o inusitado, o provocador, o exagerado: a calça branca transparente com a cueca opaca de dimensão reduzida, o vestido tipo lingerie, o short que destapa as nádegas… e muitos outros casos flagrantes com os quais tropeçamos todos os dias, não esquecendo, como é evidente, a indumentária das figuras mais andrógenas; também ao referir o homem e a mulher enquanto sexos diferenciados, não estou a excluir a construção histórico-cultural dos diferentes géneros existentes (o heterossexual masculino e feminino, o homossexual masculino e feminino e o bissexual) e as respetivas correlações com as roupas que envergam… No entanto, o que me interessa agora realçar é que os exageros da arte do vestuário, independentemente dos sujeitos em questão, parecem tão naturais que já ninguém liga: não aquecem nem arrefecem, apesar das temperaturas altas que se fazem sentir.

Na praia, dá-se continuidade a este processo descontínuo de estilismo, é o destapa-se-quem-puder: vale tudo, mostra-se todos os possíveis centímetros de pele, para os besuntar de bronzeador e usufruir de um belo escaldão; frequentam-se os cafés e os restaurantes despidos da mesma forma. Outro exemplo caricato é a atitude estilista assumida nas viagens de mota, ao que chamo o-esperar-que-corra-tudo-bem-e-não-se-tenha-um-acidente: usa-se capacete como medida de segurança, mas eles conduzem frequentemente de manga curta, calção e chinelos e elas de vestidinho ou páreo, short e chinelos, o que provavelmente dificultará a protecção dos corpos em caso de queda...

Ainda há quem ainda se vista a rigor, tendo em conta peças de vestuário e de calçado cuidadosamente escolhidos para cada ocasião, o que é tão válido como o seu contrário. Por aquilo que tenho observado, há um número considerável de pessoas que não perde tempo a pensar sobre a vestimenta, pois parece que muitos homens e mulheres saem à rua envergando o que estava à mão, o que às vezes é quase nada… Esta atitude, tão frequente nas regiões mais quentes e costeiras como a bela região algarvia, resulta em imagens risíveis que ilustram bem a tese que pretendo defender: o Algarve é um enorme Pronto-a-Despir. E como ponto de partida para a reflexão deixo um exemplo extremo e real, com o qual um amigo se deparou há uns dias, enviando-me a fotografia que captou de um casal em férias no Algarve: um homem descalço e uma mulher de bikini tipo fio dental faziam compras numa grande superfície comercial que se situa ainda longe da praia. Descontracção? Abuso? Anedota?


Foto cedida por Franscisco B.

Cada um veste o que quer vestir e ninguém tem nada que ver com isso, ou seja, a crítica alheia não deve ser a bitola do nosso estilo de moda: as necessidades e o gosto pessoais, sim. Além disso, as roupas que cobrem ou descobrem a nudez do corpo são tecidas, em primeiro lugar, com preconceitos e pudores; e também com seda, linho, lã, algodão. As roupas e restantes adereços são um vestuário emocional que nos protege das intempéries meteorológicas e sociais, mas que também nos expõe perante os outros, o que quer dizer que podemos despir as roupas, mas nunca ficamos completamente nus. A nudez é sempre interior. A pele é apenas o contorno do corpo que nos pertence, nu ou vestido, sobre o qual deveríamos ter domínio absoluto, com o devido respeito por nós e pelos outros.

Provavelmente, o-estilo-que-não-é-bem-um-estilo não é um problema sério para reflexão. O tempo de férias também é o tempo para descontrair: é só sair à rua e soltam-se umas boas gargalhadas à custa das indumentárias alheias! E de mim riem os outros.

Adília César

sábado, 3 de agosto de 2019

MÁQUINAS DE PESTANEJAR


É o império da emoção contra a chateação, da excitação contra o tédio, da rapidez contra o tempo natural das coisas, da festividade contra a tranquilidade, da ebriedade contra a sobriedade.
Marcia Tiburi


Erica, o estranho robô japonês

Agosto é o mês dourado do tempo de férias: festas, petiscos, festivais, feiras, cocktails, sunsets, viagens. Muito tempo perdido: disparates, superficialidades, indiferenças, devaneios, amores e amizades sem futuro. Planeiam-se as férias, imaginando um mundo que não existe, ao qual se chama paraíso, geralmente tornado real através de uma fotografia – verdadeira ou falsa – partilhada nas redes sociais. Outros mundos mostram-se tal como são desenhados, nos meios de comunicação social: loucos e cruéis, muito distanciados dos tais paraísos de férias dos folhetos publicitários de propaganda demagógica e turística. Ainda assim, ansiamos pelas férias de verão.

É no verão que nos aproximamos a largos passos do precipício que é o nosso vazio interior, enquanto seres humanos. Porque cumprimos as ordens do sol, da publicidade, do calendário, do consumismo, das ideias prontas, temos propensão para esquecermos a nossa essência de pessoas. Ser pessoa é um verbo formado por três conceitos – pensamento, emoção, acção – veiculados, por um lado, pelas pseudo-necessidades redimensionadas pela ditadura do consumo e, por outro, pelas necessidades reais substanciadas pela decisão pessoal ou colectiva que deveria ter em conta – mas não tem – a reflexão, o questionamento, a crítica e o discernimento.

A linguagem e a comunicação assumem outras formas numa contemporaneidade caracterizada pelos vazios do pensamento, da emoção, da acção, em grande parte devido ao papel social imposto pelas redes virtuais. As redes são sociais porque estão a mudar a sociedade, mas também são, em grande parte, demolidoras da própria comunicação entre as pessoas, parecendo um enorme manicómio onde cada “louco” diz o que lhe apetece: os outros parecem estar lá, mas não o ouvem, logo, não lhe respondem, ignoram-no, ostracizam-no, bloqueiam-no. Estas acções de causa expectante e efeito negativo promovem insatisfação, desalento, raiva e fazem surgir outros fenómenos psicológicos de esvaziamento do conteúdo emocional que parece não terem ainda nome clínico.

Cartoon de Pawel Kuczynski

Por outro lado, muita gente partilha infinitamente um enorme fluxo de ideias feitas, que assume como apelativas, sendo consumidas de imediato e não questionadas pelos destinatários; nessa viagem virtual levamo-las connosco na bagagem, esse excesso de peso que nos torna menos humanos. As pessoas procuram emoções em todos os cenários ditos radicais ao seu alcance: espectáculo, sexo, comida, droga, álcool, desporto, etecetera, mas não descodificam as emoções quando as encontram, assumem-nas levianamente como “mais uma experiência” e rapidamente partem para outra caça ao tesouro, como uma deambulação anestesiada pela procura do êxtase. Pelo caminho, os acidentes, as catástrofes e os desastres noticiados nos meios de comunicação social e redes sociais já não os comovem, parecendo existir um estado de frieza generalizada face ao sofrimento dos outros, nada fazendo para o minimizar. É difícil manter a lucidez no meio do caos, mesmo após um agradável mergulho nas águas cristalinas do oceano. As solicitações são tantas, que não sobra tempo para olhar o mundo com a percepção nítida de que realmente vimos alguma coisa comovente e nos faz intervir como cidadãos cívicos.

A violência e a banalidade do mal referidas por Hannah Arendt não têm como base a malignidade, a perversão ou o pecado humano. Ela argumentou que os seres humanos podem realizar acções extremas de destruição e de morte sem qualquer motivação maligna, sem razão aparente ou justificável, tendo em conta os processos de naturalização da sociedade e de artificialização da natureza, ambos decorridos da massificação, da industrialização e da “tecnificação” das atitudes no seio das organizações humanas, ou seja, o mal é abordado numa perspectiva ético-política e não na visão moral ou religiosa. Se o pensamento, a emoção e a acção constituem o triângulo de forças que dá corpo à essência do ser humano, também é verdade que estamos a ser invadidos pelos vazios correspondentes, para os quais em muito contribui o tempo perdido com as novas formas virtuais de relacionamento e de comunicação: porque o que procuramos já lá não está, quando nos transformarmos em máquinas de pestanejar, quando formos menos humanos, por vontade e responsabilidade própria.

É urgente tomarmos consciência de que o desenho da realidade já não é figurativo nem abstracto: é real, confuso, literal, a mudar os conceitos éticos que tudo justificam, esquecendo que todos viajaremos a caminho da eternidade no mesmo barco, pois todas as coisas se compram menos a passagem para o tempo da morte. Paradoxos da civilização a impor novos conceitos éticos. Não há soluções à vista. Na verdade, não necessitamos de profetas da luz ou da escuridão, mas sim de amor incondicional ao próximo e do regresso às coisas simples, antes de chegarmos ao ponto sem retorno: a água pura e o pão que a terra nos dá, a abelha e o lobo, o silêncio da solidão os gritos do sofrimento alheio; abolir preconceitos; e esperar um big bang que nos traga um novo mundo mais humano, depois do grande desastre. Há uma indiferença latente que ainda nos é permitida, uma espécie de falsa inocência, tendo em conta a facilidade com que nos apropriamos dos vazios que nos chegam através do prolongamento da nossa mão: o smartphone e a sua divina omnipresença. Até quando?

Adília César

LÓGOS 10 - MAIO 2022 (ÍNDICE)