domingo, 26 de julho de 2020

E TODAVIA, UM METRO É UM METRO!


 De modo que a vida/ É um circo de feras/
E os entretantos/ São as minhas esperas.

Xutos & Pontapés




A educação e a aprendizagem estão sempre em evolução, de acordo com as transformações operadas nas sociedades. Há muitas décadas que os docentes esperam que esse processo evolutivo preencha as necessidades do público-alvo: os alunos e suas famílias. Queremos a promoção do sucesso educativo das crianças e jovens, queremos um país em que o exercício da cidadania activa contrarie a ignorância passiva. E o que quer o Ministério da Educação?

Nunca um futuro ano lectivo foi tão planeado, questionado, badalado. Todos têm opinião, os que estão dentro e os que estão fora da escola, pois, implícita ou explicitamente, com ela se relacionam. A Escola, essa instituição organizadora das sociedades é, ao mesmo tempo, um retrato fiel do nosso valor humano. Entre outros assuntos, muito se tem falado e escrito na distância de segurança anti-pandemia em recinto escolar. Na sua maior parte, os eventos televisivos e despachos governamentais a esse respeito mais parecem sketches humorísticos de fraca qualidade, embora eu preconize que, ainda assim, possam ficar na história da educação como pontos nevrálgicos de uma nova tese matemática – a distância correspondente a um metro-padrão é a distância “possível” correspondente a um metro-padrão. Esta tese, de tão amplo o seu espectro, veio permitir a introdução do corolário “se possível”, uma vez que, medindo-se o metro-padrão clássico ao longo de 100 centímetros clássicos, aquele poderá ser encolhido e esticado de acordo com a possibilidade dos intervenientes na sua relação com os espaços. Ou seja, a sala de aula com 45 ou 50 metros quadrados albergará turmas de 20 a 30 alunos e respectivos professores, todos à distância possível de um metro (que já não é o metro-padrão, é o pseudo-metro-na-medida-do-possível).

Quer dizer, há o metro-padrão anterior à era pandémica e há um outro metro-padrão mais flexível, correspondente à era pandémica propriamente dita. Vejamos algumas pérolas do discurso oficial (Orientações-DGESTE_DGE_DGS-20_21):
(…) I – Medidas Gerais
d) Procurar garantir as condições necessárias para cumprir com as recomendações do distanciamento físico;
II – Organização do Espaço – Educação Pré-Escolar
3. Deve ser maximizado o distanciamento físico entre as crianças quando estão em mesas, sem comprometer o normal funcionamento das atividades pedagógicas.
III – Práticas Pedagógicas – Educação Pré-Escolar
3. Pese embora a recomendação de distanciamento físico, importa não perder de vista a importância das aprendizagens e do desenvolvimento das crianças e a garantia do seu direito de brincar.
IV – Organização Escolar – Ensinos Básico e Secundário
4. c) Sempre que possível, deve garantir-se um distanciamento físico entre os alunos e alunos/docentes de, pelo menos, 1 metro, sem comprometer o normal funcionamento das atividades letivas.
7. Definir e identificar circuitos e procedimentos no interior da escola, que promovam o distanciamento físico, nomeadamente no percurso desde a entrada da escola até à sala de aula e nos acessos aos locais de atendimento e convívio.
8. Evitar a concentração de alunos nos espaços comuns da escola.
V – Código de Conduta
Além do uso da máscara dentro dos recintos escolares, devem ser mantidas as regras de higienização das mãos e etiqueta respiratória, promovendo-se ainda, a maximização do distanciamento físico. (…)

Das orientações depreende-se que o distanciamento físico possível depende da realidade física das salas de aula, ou seja: em salas de maior área e com menor número de alunos, 1 metro é o metro-padrão; em salas com menor área e com maior número de alunos, 1 metro é outra medida qualquer, como por exemplo, meio-metro. É muito curiosa a flexibilização do conceito de distância de segurança anti-pandemia: no início da dita, era de 2 metros; há uns meses, passou a 1metro e 50 centímetros; depois, encolheu para 1 metro; e presentemente, é o metro-possível, ou seja, todos encostadinhos uns aos outros. Caso ainda fossemos, malogradamente, assolados por algumas dúvidas, as declarações do Ministro da Educação Tiago Brandão Rodrigues vieram esclarecer o distanciamento físico correspondente a 1 metro:
- (…) e, obviamente, também o distanciamento, que ficou muito claro que sempre que possível deve ser de um metro e sempre que possível deve ser o mais maximizado possível.
- (…) Os alunos vão caber todos na mesma sala. Não haverá desdobramento de turmas.

O que o Ministro da Educação ainda não percebeu é que o metro-possível vai operacionalizar-se nuns míseros 11 centímetros! Sabemos este dado de fonte segura porque temos estado dentro das salas de aula com os nossos alunos! A inevitabilidade de voltar ao jardim-de-infância e à escola em setembro, tendo em conta as compreensíveis urgências pedagógicas, sociais e económicas, é uma impossibilidade possível, de acordo com as orientações da tutela, uma vez que vai ocorrer um aumento de casos de infecção por Covid-19 devido a um erro primário de planeamento: manter o número de crianças/alunos por grupo/turma em vez de o reduzir. E é a partir deste erro oficial que todas as estruturas intermédias e comunidades educativas tem de trabalhar com vista à organização do próximo ano lectivo, numa tentativa hercúlea de minimização dos estragos que se hão-de fazer sentir e que serão, no processo e no produto, uma responsabilidade colectiva. A saúde pública vai estar na corda bamba e cabe à escola, e principalmente aos educadores/professores de cada grupo/turma, um papel muito ingrato, uma vez que cada um destes docentes é responsável por gerir todas as regras de controlo de infecção, num espaço saturado de crianças/alunos.  Está errado, sabemos que está errado, mas vamos todos obedecer. Afinal, tudo mudou para tudo ficar na mesma. O que querem a DGESTE, a DGE e o ME com a premissa sempre que possível que mais parece quase sempre impossível? Querem que os docentes desenvolvam as suas actividades/aulas e protejam toda a comunidade escolar com as condições de trabalho que as escolas (não) oferecem, responsabilizando-se injustamente pelos fracassos que não podem controlar? Quantos “entretantos” são necessários para a chefia corrigir erros irreversíveis? Sim, a vida é um circo de feras, mas mansas. Ah, que vontade de dar xutos e pontapés nisto tudo.

Adília César


sábado, 11 de julho de 2020

O FUTURO É HOJE


Reinventarmos juntos o mundo que compartilhamos.

António Guterres, 25-06-2020


A frase de António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, é um desejo simbólico e universal que vem de um passado remoto, desde que os primeiros povos deram voz às suas reivindicações por um mundo melhor, mais justo e, em pleno século XXI, também mais sustentável.


Giacomo Balla, pintor futurista (1871-1958)

Estamos todos de acordo que a ambição desmedida e arrogante dos humanos tem implicado uma relação injusta, catastrófica e quase unilateral com os recursos naturais. A Natureza tem sido a nossa escrava e poderá ser, em última instância, a nossa perdição. A evolução científica, médica, industrial e bélica assenta numa lógica superlativa e consumista: mais, melhor, vertiginosa. Já estamos a pagar caro pelos nossos sonhos exacerbados de progresso inglório, há muito tempo.

Juntos, habitamos um planeta maravilhoso, esta dádiva redonda de ser azul e verde. Conquistámos territórios, fechámos fronteiras e inventámos a Pátria, com idioma e bandeira. Mas não ficámos por aqui.
Construímos casas e pontes, canalizámos água potável, acendemos lâmpadas, curámos doenças. Mas não ficámos por aqui.
Fomos à lua, lançámos bombas atómicas, clonámos seres vivos. Mas não ficámos por aqui.
Assinámos tratados, abrimos fronteiras, acolhemos refugiados. Mas não ficámos por aqui.
E o que parece nunca deixar de existir é a constante assimetria dos povos de todo o mundo no acesso a direitos fundamentais de sobrevivência da própria espécie: os ricos e os pobres, o desperdício global de recursos e a fome de tudo, o aumento do desemprego e a incapacidade de nos protegermos uns aos outros. A saúde, a educação, a cultura e a sustentabilidade do planeta e de todos os seus habitantes continuam em risco.

Várias pandemias já se abateram sobre o mundo. A Covid-19 é a última, é mais uma. Que aprendemos com as pandemias que acreditámos terem sido vencidas? Quase nada, porque temos ânsia de voltar a sentir essa “doença da normalidade” a que nos habituámos; não vemos que o mundo está em permanente mudança e que tudo o que acontece de bom ou de mau serve para nos dar pistas para salvarmos o futuro. Não é possível continuar a cometer os mesmos erros numa tentativa vã de voltarmos a ter a vida que antes vivíamos, porque isso seria um processo de recriação dos sistemas que fizeram piorar todas as crises. As consequências negativas estão à vista, mesmo que todos os dias nos digam, politicamente, que “a situação está controlada”.

O futuro é hoje, porque o amanhã ainda não existe. É hoje que temos de orquestrar as mudanças necessárias e deixá-las como legado de uma vida digna para os nossos filhos e netos. Viver com a máscara cirúrgica colocada sobre a máscara facial da fatalidade é um desconforto menor comparado com a crise ambiental e económica à escala global. Esta última grande crise, por ser planetária, é tão infecciosa como o novo coronavírus que não distingue nem homens, mulheres ou crianças, nem novos ou velhos, nem ricos ou pobres, nem bons ou maus, e desenfreadamente se abate sobre qualquer um. O vírus invisível e poderoso é a criatura mais justa que existe porque através dos seus dons perniciosos de infecção, doença, morte e consequentes desequilíbrios na vida em sociedade, veio mostrar-nos uma verdade límpida como a água da nascente: afinal, somos todos iguais nos direitos a usufruir e nos deveres a cumprir; somos todos capazes de uma maior justiça na relação com os outros, na esperança, na solidariedade para com os mais vulneráveis. É na sustentabilidade, na inclusão e na igualdade que as “novas” políticas têm que assentar para salvaguardar a Vida nas suas variadas vertentes sociais, económicas, culturais, espirituais: em suma, a Justiça para Todos.

O futuro é hoje, porque amanhã já não estaremos aqui. Enquanto arquitectos da vida sabemos que “nenhuma árvore ou pedra arrancada à natureza nos é restituída” (Siza Vieira) e que qualquer mal que causemos mata uma parcela da nossa humanidade. E se o tempo pandémico durar muito, esse é precisamente o tempo que precisamos para nos empenharmos na construção de um mundo diferente, salvando apenas o que ainda vale a pena. Do pensamento à acção, somos todos responsáveis.

Adília César

sábado, 27 de junho de 2020

APPLE E COCA-COLA


Eles entenderam que era mais fácil
criar consumidores do que subjugar escravos.

Noam Chomsky

A vida contemporânea está moldada pela indústria da publicidade. O principal objectivo desta actividade profissional é a divulgação de ideias, instituições, serviços e produtos junto de um público-alvo – a massa consumidora – induzindo-o a uma atitude favorável à ideia em causa, à predisposição para utilizar um determinado serviço ou adquirir um produto específico. A técnica da propaganda difunde ideias e produtos, e a publicidade é o instrumento que os torna públicos. Do ponto de vista histórico, não sabemos como teve início esta actividade, mas todos sabemos o que ela significa hoje e que consequências tem nas nossas vidas. Estamos muito longe do primeiro anúncio publicitário da loja de agulhas da família Liu, em Jinan (Dinastia Song, China), considerado o primeiro meio de publicidade impresso do mundo. Aliás, sabe-se que a partir de 200 a.C. essa preocupação com o status social e estratificação das marcas já existia na China.


Anúncio publicitário da loja de agulhas da família Liu

Outra referência importante foi a campanha publicitária de sucesso da Coca-Cola no final do século XIX e que perdura atá aos nossos dias (em 2011, a Coca-Cola foi considerada a marca mais valiosa do mundo). E o que dizer da marca Apple no segmento das tecnologias de informação e comunicação que no século passado, em 1997, criou um inovador anúncio comercial de cariz filosófico intitulado “To the crazy ones”)? Recordemos: Isto é para os loucos. Os desajustados. Os rebeldes. Os criadores de caso. Os que são peças redondas nos buracos quadrados. Os que vêem as coisas de forma diferente. Eles não gostam de regras. E eles não têm nenhum respeito pelo status quo. Você pode citá-los, discordar deles, glorificá-los ou difamá-los. Mas a única coisa que você não pode fazer é ignorá-los. Porque eles mudam as coisas. Eles empurram a raça humana para frente. Enquanto alguns os vêem como loucos, nós vemos génios. Porque as pessoas que são loucas o suficiente para achar que podem mudar o mundo são as que, de facto, mudam.

Anúncio publicitário da Coca-Cola (século XIX)

Anúncio publicitário da Apple (século XX)

Eles precisam de ver para crer, pensa o publicitário. E mesmo que seja mentira, se repetir muitas vezes, eles vão acreditar, acredita o manipulador. Não raras vezes, o publicitário e o manipulador justapõem-se. Exactamente: a indústria da publicidade dedica-se à criação de consumidores, os escravos do consumo dos séculos XX e XXI, mas por se terem conquistado tantos direitos e liberdades, dificilmente o sistema nos subjugaria sem resistência: foi necessário encontrar novos meios para controlar as pessoas, ou melhor, foi imperativo encontrar problemas que nem sabíamos que tínhamos para nos darem as soluções, através da indução. Vejamos alguns exemplos: temos muitos livros, então compramos um módulo Billy da Ikea; queremos ser felizes sem culpa, bebemos Coca-Cola light; queremos sentir-nos especiais, adquirimos o último modelo do Iphone (qualquer coisa) Plus.

O sistema de propaganda e de consumo conhece-nos e não lhe interessa que o consumidor de ideias, instituições, serviços e produtos esteja consciente das suas opções. Na situação pandémica em que vivemos, é notório um esforço global de marketing para nos fazer esquecer este fatal sentimento de vulnerabilidade que se apossou de nós, pois não nos quer deixar olhar com a devida atenção para a vida de confinamento que vivemos durante os últimos meses em que o mundo, literalmente, parou. Sabemos que o novo coronavírus existe e que não há cura, mas rapidamente desistimos de o combater. Todo um sistema de divulgação, publicidade, propaganda e marketing nos provoca, impelindo-nos de viver uma “nova normalidade” que é, afinal, igual à que vivíamos antes da pandemia: trabalhar, andar de transportes públicos, utilizar serviços, pagar impostos, fazer compras. Usamos máscaras cirúrgicas ou comunitárias, escondendo as más caras de cansaço e enfado que ostentávamos noutros tempos. Saímos todos os dias para a rua e abrimos muitas portas metafóricas, que sucessiva e cumulativamente nos vão contaminando com uma espécie de normalidade assintomática, e qualquer dia acreditamos que a Covid-19 foi apenas uma gripezinha (?!).

E nós, conhecemos o sistema de propaganda e de consumo? Temos consciência desta forma de manipulação que nos faz duvidar da nossa própria sanidade para aceitar as realidades, opiniões e perspectivas impostas pelo manipulador? Chama-se Gaslighting e veio para ficar, já está bem instalada entre as pessoas. Cuidado… Para finalizar, deixo uma questão que poderia ser o princípio de uma reflexão sociológica em larga escala: afinal, quem ou o que empurra a raça humana para a frente?

Adília César

sábado, 13 de junho de 2020

MUDAM-SE OS TEMPOS, MUDAM-SE AS VONTADES*


Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E enfim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

*Soneto de Luís Vaz de Camões
(Lisboa[?], 1524 — Lisboa, 10 de junho de 1579 ou 1580)

 
Foto de Mariana Aguiar

Desde há muito tempo que o dia 10 de junho está conotado com um sentimento português de celebração. Em 1925 a I República proclamou-o como Festa de Portugal. A mesma data foi seguida pelo Estado Novo, elevando-a à categoria de feriado nacional em 1929. No entanto, só em 1952 é que o dia passa a denominar-se como Dia de Portugal, uma vez que o Estado Democrático instituído pelo 25 de abril de 1974 assim o entendeu. Desde 1987 que o dia 10 de junho se celebra como Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. O facto de a importância da data vir de longe é bastante original, sendo praticamente “caso único” no mundo segundo a historiadora Maria Isabel João, lembrando que a “maioria esmagadora dos países do mundo escolhe uma data que se relaciona com a fundação do Estado ou do regime político vigente”.

O Dia de Portugal personifica uma identidade nacional enraizada na consciência dos portugueses. É um símbolo histórico-cultural do povo, um valor abstracto validado por uma convenção, algo que representa qualquer coisa para alguém, absolutamente essencial no processo de comunicação no seio de uma comunidade. Os símbolos funcionam como sinais que nos ajudam a chegar a um pensamento conceptual comum, neste caso, a assunção do conceito de portugalidade que é diferente do portuguesismo.

Este último Dia de Portugal – 10 de junho de 2020 – celebrou-se em plena pandemia de coronavírus, a qual não pode ser ignorada. São tempos que vão ficar na história de toda a humanidade; estão a ser escritos neste preciso momento, também aqui neste pequeno país. É uma história que não sabemos como vai acabar. Quem dá voz aos tempos de inquietação e receio? Somos portugueses e estamos juntos. Temos sol, mar e esperança. Somos poetas e sabemos que o poema de Camões nos abre o caminho da resistência e da cura, através da mudança. Temos opinião, somos declamadores de alma e coração, e arranjamos sempre maneira de ficar tudo bem, encontrando soluções criativas para os problemas de todos os dias.

Afinal, ser português é tudo valer a pena porque a nossa alma não é pequena, é aguentarmos todas as mudanças, ainda que pandémicas. Também não será um vírus que nos vai derrubar, porque ser português é acreditar em tudo e duvidar de tudo. Entre a portugalidade e o portuguesismo, o nosso instinto individual e colectivo vai encontrar o caminho necessário à vida. E isso é Portugal.

Adília César
https://issuu.com/danielpina1975/docs/algarve_informativo__252

sábado, 16 de maio de 2020

A PRIMEIRA MANHÃ DO TEMPO


SÍFISO

Recomeça…
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças…

Miguel Torga*, in Diário XIII, s/d




Pode a Poesia ser uma forma de ver o mundo?  De que mundo estamos a falar? “Há mais Mundos”, já o dizia José Régio no seu livro de contos; há muitos mundos – um por cada ser humano – que por sua vez se compartimentam noutros, de acordo com as percepções face ao real e ao imaginário. O meu lugar-mundo é permeável e sensível aos sonhos e às tragédias de todos os mundos – os meus e os dos outros. Sou a sonhadora racional que se quer conhecer através de todas as possibilidades até ao limite do impossível, questionando o seu contributo em relação ao próximo, inventando novas formas de intervenção através do poema. A Poesia dá a conhecer o mundo do poeta que escreve e se dá a ler, numa perspectiva de punição existencial na procura do seu lado mais negro. A punição, o castigo e o alívio andam de mãos dadas e recriam o mundo, acordando outros mundos em nós e mostrando que não estamos sós nos momentos difíceis. A Poesia é mais uma forma de questionamento que poderá resultar em epifania. E aí, sim, alcançamos algum conhecimento do mundo que nos rodeia e novas maneiras de intervir.

O mundo que nos rodeia é, na actualidade, um ambiente pandémico, escuro, confinado. Ou seja, voltado para dentro apesar da exacerbada utilização das redes e plataformas virtuais que vieram substituir as relações humanas presenciais. A peste amedronta e traumatiza, mas não paralisa. Hoje, tal como noutras épocas pandémicas, a humanidade sabe que os indivíduos são capazes de transformar a sociedade cultural, económica e ética, apesar de se focarem numa “celebração do presente”, como já o disse Bruna Vargas. Existe um apelo inequívoco à produção artística como uma tentativa de racionalizar o trauma perpetrado pela intensidade emocional deste momento trágico que agora vivemos. Em cada dia que acorda connosco, o mundo é pandémico e a arte também, enquanto expressão viva das vicissitudes. Em cada dia, a primeira manhã do tempo é a primeira manhã deste mundo novo, talvez admirável pela forma criativa como experimentamos novas formas de vida e novos modos de sobrevivência. Somos actores e espectadores numa peça de teatro sempre improvisada, com a coragem de actuar, em presença, até ao fim.

O poema Sífiso de Miguel Torga é um hino melancólico à vida, um apoio espiritual e estético nesta demanda diária e global pejada de inconstâncias. A vida enquanto nascimento, experiência e morte é uma condenação, uma aventura de constantes recomeços. Se o mundo é uma armadilha ampla que ameaça de modo tão concreto e doentio a nossa sobrevivência, como podemos encará-lo de frente? Tal como o rei Sífiso, carregando o rochedo até ao alto da colina, no Inferno, durante toda a eternidade, apesar do rochedo rolar encosta abaixo sempre que estivesse prestes a chegar ao cume? Ou como seres detentores do nosso destino, ainda que por vezes infernal, usufruindo das sucessivas oportunidades que a vida oferece, em busca de realização pessoal e solidária para com os que mais precisam?

A Arte e muito concretamente, a Poesia, enquanto expressão de liberdade criativa, podem trazer lucidez ao caos humano, à insanidade da besta. O poema não é uma simples imagem dos acontecimentos, mas também um mapa de prospecção da nossa própria humanidade. O poema apela à consciência e à moral, ao traço distintivo da nossa espécie: temos plena consciência da nossa loucura. E mesmo que nos sintamos infelizes, temos também a satisfação intrínseca de nos sabermos livres e saudavelmente loucos.

Adília César

*Miguel Torga [S. Martinho de Anta/Vila Real, 1907 - Coimbra, 1995]
Nome literário do médico Adolfo Rocha. Poeta, ensaísta, dramaturgo, romancista e contista. Cultivou a escrita autobiográfica num extenso "Diário" (escrito entre 1932 e 1994) e em "A Criação do Mundo". Além de poeta, é também conhecido pelos contos, muito estudados no ensino. Foi o primeiro autor lusófono a receber o Prémio Camões, em 1989.


sábado, 2 de maio de 2020

LAOS DEO


O estado em que vivemos, é o verdadeiro apocalipse: o apocalipse estável.
 Karl Krauss, Janeiro de 1917



A imprensa e o Estado de Emergência decretado pelo governo conseguiram fechar-me em casa, e actualmente a única filosofia de vida que professo é a do confinamento. Pensando convictamente que estaria a proceder da melhor maneira, dei por mim a ressentir-me de uma outra espécie de maleita: a da obediência ao jugo do poder do Estado e da imprensa.

A imprensa tem exercitado a sua função informativa, formativa e deformativa de modo controlador, coercivo e intimidante, plagiando a interioridade emocional dos Cidadãos – os indivíduos portadores da doença do Medo – e influenciando estados do espírito colectivo: amedrontar e comover, para controlar e fazer obedecer.  O poder central e o poder regional andam de mãos dadas: na minha rua, diariamente, uma viatura do município dissemina no autofalante a seguinte mensagem aos seus munícipes:

- Mantenha a distância de segurança. Proteja-se a si e aos seus, fique em casa. Aguarde com a distância de segurança pela sua vez no atendimento. Seja responsável. Juntos, vamos parar o Coronavírus. Mensagem do Município de Faro.

A epidemia causada pelo coronavírus chegou e veio para ficar nos “últimos dias da humanidade” (ainda Karl Krauss), tendo em conta que vivemos uma nova pandemia, a tal “catástrofe permanente” evidenciada por Walter Benjamin – pois não são todos os dias os últimos dias da humanidade? Na nossa tragédia, tal como na de Krauss em “Os Últimos Dias da Humanidade”, quase não existe desenvolvimento dramático. Nas notícias incessantemente difundidas, ou melhor dizendo, na única notícia difundida – a pandemia Covid 19 – assiste-se a uma vaga progressão dos acontecimentos a ela relativos, mas na verdade somos apenas coagidos a obedecer aos aspectos principais da “cura”: o distanciamento social que destrói o afecto humano, a avidez pelos números de infectados e de mortos que nos amedronta, a destruição do tecido empresarial que implica uma quase total dependência económica do Estado, a vigilância exacerbada das autoridades que impede a deslocação normal dos cidadãos, a não ser em caso de absoluta necessidade; e tudo isto imposto por decreto-lei. Como não obedecer, se o que está em causa é a saúde pública e qualquer desvio à norma é um elo acusatório e vergonhoso da conduta humana? Não há como negar que todo o acto humano pode implicar consequências desumanas e em épocas históricas de peste está sempre ligada a uma noção inequívoca de poluição moral, de sujidade e conspurcação da alma.

O poeta Rimbaud escreveu: «O ar e o mundo já são demandados. A vida.» Também o psicanalista Wilhelm Reich corroborou a ideia de ar humano contaminado: «Existe uma energia orgânica mortal. Ela está na atmosfera.» e se a tese proposta por Paulo Varela Gomes (1981) fizer todo o sentido em 2020 ou em qualquer época, como na Idade Média ou no Antigo Regime? Ele sugere que se ponha de parte a questão biológica da epidemia e da infecção, admitindo que são os organismos sociais humanos que a contraem e se contaminam. A epidemia seria um fenómeno ideológico e político e pertenceria ao Estado e aos seus Aparelhos. Nesta análise, o editor e psicanalista Vasco Santos sintetiza o fenómeno, em forma de alerta: «O que é dito é que a Peste, quer na Idade Média quer no Antigo Regime, foi uma doença das formas de dominação de classe, dos aparelhos de Estado e das ideologias. Tal como no passado, o coronavírus, um vírus afinal modesto e tímido, serve para impor a ordem, higienizar o corpo e a cidade e relativizar o contrato social. Ele permite controlar, vigiar e punir. O coronavírus intensifica a biopolítica e o niilismo, a máscara e a assepsia. Trata-se de um vírus, ou melhor, de uma estratégia higienista, antipsicanalítica pela acentuada diminuição da empatia, pela distância social legitimada e pela perda da poesia do real quotidiano. Esta política espectacular acentua a ideologia da saúde (por falência da ideia de salvação) e forclui a morte, esse tabu excelentíssimo de agora. Desinfectamos magicamente as mãos porque somos contra a morte.» Não está tudo dito, mas é um excelente ponto de partida para uma urgente reflexão nesta semana em que recordámos o 25 de abril e o 1º de maio como marcos de Liberdade na sociedade portuguesa; é também um momento bastante oportuno para reler a ficção “1984” de George Orwell, uma distopia muito bem conseguida sobre as tendências totalitárias das sociedades do século XXI.

Krauss é, decididamente, o “mestre da indignação”, conforme referiu Elias Canetti num ensaio que a ele dedicou. Indignemo-nos também, ainda que sem grandes dramas. Mas não nos fiquemos pela rama dos acontecimentos. As ciências médicas tiveram avanços tremendos no que diz respeito ao controlo de doenças e no aumento da esperança de vida das pessoas. Pensámos que a Demagogia – a Peste, a Praga, a Epidemia – tinha sido erradicada, mas aí a temos, de novo, avassaladora e destrutiva dos nossos princípios básicos, do nosso livre arbítrio. E volto a Krauss, nas palavras de Vasco Santos: «pois tudo o que não foi destruído pela peste, sê-lo-á pela imprensa.»

Ao toque de clarim do primeiro Estado de Emergência senti-me afundar num pântano, mas ao fim do terceiro consegui agarrar alguns ramos fortes do pensamento de diversas personalidades que aqui tentei sintetizar. E juro que não morrerei ainda hoje. Laos Deo.

Adília César

https://issuu.com/danielpina1975/docs/algarve_informativo__246

sábado, 18 de abril de 2020

O ADMIRÁVEL MUNDO DAS COMEMORAÇÕES


A economia, a saúde, gente a morrer todos os dias, etc. "Vai Ficar Tudo Bem", nem quero imaginar o que seria se tudo ficasse mal.

Raul Pimenta




A comemoração da Páscoa foi bem diferente, neste estranho ano de 2020. Na sua definição, o tempo destinado à Páscoa é a reflexão sobre a crucificação, a morte e a ressurreição de Cristo. Talvez seja a principal comemoração da tradição cristã porque coloca em evidência de Verdade a crença na ressurreição de Cristo, que se ofereceu em sacrifício para a salvação da humanidade, dando-nos a perspectiva de uma nova vida. Através de uma simples associação de ideias, chego aos técnicos de saúde e seus auxiliares retidos nos hospitais, em sacrifício, dia após dia. Tentam salvar a humanidade. Há muitas formas de crucificação e muitas maneiras de morrer, mas desconheço modos eficazes de ressurreição. Nesta Páscoa eles foram os meus "Cristos" e vieram substituir as amêndoas e os folares, as tais alegrias doces que não estiveram na minha mesa de Domingo de Páscoa por vontade própria. E no tempo do porvir – Estado de Emergência ou similar – eles são e serão os meus heróis. Demonstro um profundo respeito por todos esses corajosos e incansáveis profissionais através do meu confinamento, para não adoecer e não contagiar os outros. E isso basta-me enquanto comemoração e actual filosofia de vida.

Tenho também dedicado algum tempo a reflectir sobre o valor humano do mundo virtual neste período de isolamento, a tentar que o meu pensamento alcance algo diferente da coisa pensada, ou melhor dizendo, que encontre uma passagem para o real. Mas não é fácil. Na verdade, não podemos filtrar aquilo que queremos ver ou ler nas redes virtuais onde parece estarmos a gastar tanto do nosso precioso tempo: a quantidade de "shits" sobre a pandemia que nos é oferecida diariamente pelos “especialistas”, multiplicada em numerosos grupos de apoio à cena Covid-19, é avassaladora e viola as nossas intenções mais inocentes. Existem, no entanto, verdades bombásticas: a cada dia, há mais pessoas infectadas e algumas delas irão morrer; o mundo económico está em grande parte parado, causando um perigoso estado de precariedade no poder financeiro das famílias, logo, da sua sobrevivência; o país e o mundo equilibra-se numa corda bamba; a vida está suspensa bem acima das nossas cabeças ocas. Tudo se resume a sermos capazes de desenhar um mapa pessoal de sobrevivência, que é, afinal, igual para todos: não adoecer, não contaminar os outros, conseguir ter dinheiro suficiente para adquirir bens de primeira necessidade, ser solidário para quem mais precisa.

O espírito positivo está na moda e os arco-íris também. Mas nada disso nos irá salvar. Precisamos de acreditar no poder maligno deste novo vírus, desconfiar de tudo o que nos dizem e, até ao limite do impossível, prestar a devida vénia ao distanciamento social. Logo, uma boa dose de negativismo, sem distracções. Só isso dará mais tempo ao nosso tempo. Para não morrer ainda.

Graças a Deus, o Seu Filho já ressuscitou e podemos enterrar a Páscoa, dando início a uma nova semana que mais parece "a sombra de uma sombra" (belo título para um livro de poemas...). A vigilância assoberbada sobre os habitantes deste planeta infectado assusta-me. E aceitamos essa vigilância virtual porque estamos à mercê de um vírus que nos colocou a todos, de uma assentada, em sucessivos Estados de Emergência controlados pelas autoridades que afinal só nos querem salvar. 

Vêm aí outras comemorações: o 25 de abril e o 1º de maio. Este ano, e sem qualquer espécie de ironia, tentarei não aturdir o pensamento com ideologias de outros tempos e vou substituir os cravos vermelhos por máscaras, luvas e gel desinfectante, tomando a Liberdade como minha conselheira.

#VaiFicarTudoBem? Cuidado com a demagogia do espírito positivo. Faz mais sentido, para mim, o seguinte slogan: #VaiFicarTudoDiferente.

Adília César

sábado, 4 de abril de 2020

OS TÍTULOS PROVISÓRIOS


O que se pede à cena é apenas o delírio de uma coisa exacta.
Herberto Helder




Hoje fiquei em casa, como de costume. E ontem. E amanhã. O que se levanta é a lentidão de um gesto, na janela agora aberta, pela necessidade de fazer alguma coisa. A matéria reveladora do desalento dá significado ao medo de dormir e de acordar. Ergo uma muralha em redor dos acontecimentos fatais que ouço a toda a hora nas notícias. Esse é o retrato do mundo real, tal como nunca o tinha conhecido, um quase-tempo, um quase-lugar. E o tempo, com a duração esticada até aos limites do impossível, parece não ter movimento, é o cúmulo da inércia. As ruas, as nuvens, as pessoas, um vazio intolerável e desumano, de tão nublado sobre os telhados de vento e martírio. Quero sair para fora de qualquer coisa que me atraiçoa, mas fiquei em casa, como de costume. Iluminei-me com uma certa luz interior.

Amanhã é um outro dia que não vai chegar, pelo menos para alguns. Na verdade, “não vamos ficar todos bem”. Pelo menos, não da forma como conhecíamos os dias, concretos, palpáveis - esquemas organizadores do tempo de cada um. Por agora, permanecemos na fronteira do desconhecido, entre paredes e objectos tão familiares. O idioma das águas está a ser inventado naquele preciso instante do início da chuva, do princípio de tudo; parece ser sempre a primeira vez, de cada vez que acontece alguma coisa: o estrondo do trovão, o riso da criança, o ronco do automóvel pela manhã. Borboletas imaginárias nas experiências de espanto.

Estamos fechados em casa, em permanente delírio: quantos mortos?

Se tudo o que existe no mundo começou com um não, o arrepio é a sensação mais pura que Deus inventou, para dar a possibilidade aos humanos de contradizerem as tragédias. A Sua Mão a cair sobre as nossas cabeças, desde sempre. Depois, a cena desenrola-se na nossa consciência, como uma passadeira vermelha de vaidades, crimes, boçalidades e absolvições. O arrepio continua a ser a resposta visceral à propagação de todos os vírus, literais e metafóricos: a música que nos inebria, o poema que nos fascina, a imagem que nos choca, a mazela que nos apavora, a atitude altruísta que nos comove. E se para muitos Deus não é para aqui chamado, manter o arrepio como sensação de vida parece-me razoável, prodigioso até. Afinal, ainda estamos vivos.

Permaneço escondida em casa e espero um caudal de milagres. Não me atrevo a pedir ajuda, porque não compreendo o que está a acontecer. E enquanto a cidade exibe janelas fechadas e ruas vazias, espero não ser vista pelo dragão. Acredito que essa perturbação interior e submissa só pode ser captada com a lente especial do movimento das horas, que ainda não foi inventada, apesar de toda a tecnologia patente no meu smartphone. É um relógio que anda ao contrário, em direcção ao passado, aquele tempo familiar em que o mundo todo nos pertencia. Agora, o espírito soterrado comanda a vida numa absoluta concentração.

Um ponto, uma linha de luz, contemplação introspectiva e difusa da estrela longínqua que guardo nas mãos e pretendo devolver ao firmamento: esmola que dá tempo e mais tempo, movendo-se por entre os dedos, caindo sobre a minha cabeça de aflição luminescente. Tu abres os olhos ao brilho: foste visto quando apenas querias ser ouvido. A mão de Deus curvada sobre a humanidade, essa espiral de antagonismos: quantos mortos? O mundo, tal como o conhecíamos, chegou ao fim. Amanhã é um outro dia diferente. Resta-te, pois, esperar, tal como todos nós. Mas, andando sobre o andamento do tempo, pareces estar parado.

Lá fora, os pássaros cantam porque sabem que a primavera já chegou.


Adília César

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sábado, 14 de março de 2020

OS PORTUGUESES

O Povo completo será aquele que tiver reunido no seu máximo todas as qualidades e todos os defeitos. Coragem portugueses, só vos faltam as qualidades.

Almada Negreiros

Portugal é um pequenino canto da Europa, encantador, crédulo. E também fanfarrão, irresponsável, exasperante. Além do clima ameno e da boa gastronomia, pouco mais há a dizer de positivo, apesar de toda a benevolência compassiva que ainda consigo escavar bem no fundo de mim mesma. Afinal de contas, sou portuguesa e sirvo os outros na minha actividade profissional há mais de 30 anos.


Desenho de Matilde B., 4 anos de idade

É nas situações de crise, como a conjuntura actual provocada pela pandemia do Covid 19, que me apercebo melhor do estado em que se encontra o meu país. Faz sentido relembrar as palavras do filósofo José Gil (Moçambique, 15 de junho de 1939), considerado pelo semanário francês Nouvel Observateur como um dos "25 grandes pensadores do mundo", que em 2004 publicou o livro "Portugal-Hoje, O Medo de Existir", no qual pretendia realizar uma radiografia ao "carácter português". A maior lição a retirar desta pequena obra prima da filosofia é o conceito da “não-inscrição”, a par da existência de um processo de controlo social sobre a população portuguesa por parte das classes dominantes nos diversos quadrantes da sociedade – político, cultural, artístico – através da apresentação de sucessivos disfarces para a Democracia, uma palavra já tão gasta e incompreendida que se confunde facilmente com demagogia, inércia, corrupção e pessimismo. Esta “democracia” doente tem-se propagado como um vírus e vem consignando este fragilizado Portugal como o país da não-inscrição:

Em Portugal nada acontece, «não há drama, tudo é intriga e trama», escreveu alguém num graffiti ao longo da parede de uma escadaria de Santa Catarina que desce para o elevador da Bica. Nada acontece, quer dizer, nada se inscreve - na história ou na existência individual, na vida social ou no plano artístico. Talvez por isso os estudos mais sólidos e com maior tradição em Portugal sejam os que se referem ao passado histórico, numa vontade desesperada de inscrever, de registar para dar consistência ao que tende incessantemente a desvanecer-se (e que, de direito, se inscreveu já, de toda a maneira - mas onde?). Curiosamente, aquele graffiti tentava inscrever a impossibilidade de inscrever...(...) Se, num certo sentido, se disse até há pouco (hoje diz-se menos) que «nada mudou» apesar das liberdades conquistadas, é porque muito se herdou e se mantém das antigas inércias e mentalidades da época da ditadura: desde o medo, que sobrevive com outras formas, à irresponsabilidade que predomina ainda nos comportamentos dos portugueses. (pp.15-17)


Relógio d'Água, 2004

Nestas circunstâncias de insegurança, há uma correlação directa de causa-efeito nas acções dos cidadãos. Como se manifesta a intervenção cívica perante uma crise de saúde pública que esbarra com comportamentos irresponsáveis de uma geração jovem sobre a qual os mais velhos depositam a sua esperança num mundo mais justo? No dia em que a Organização Mundial de Saúde declarou o estado de Pandemia de Coronavírus, fazia-se sentir um belo dia de sol em Portugal, e o bom tempo levou muitos jovens estudantes com aulas suspensas às praias da linha de Cascais, indiferentes à situação de pandemia, pondo em risco a sua saúde e a saúde dos outros. Qual o valor da consciência democrática?

Na minha actividade profissional, sirvo os outros numa escola. Não estou em pânico com o Covid 19. Os nossos governantes tentam convencer a população portuguesa: dizem ter as melhores intenções e que estão plenamente dotados de competências estratégicas para conseguirem resolver com "serenidade, calma e bom senso" o que aí vem. Pura demagogia, pois não se vê qualquer acção preventiva digna de nota no que diz respeito a um sector público da maior importância: creches, infantários, jardins de infância, estabelecimentos de educação e de ensino. Na minha escola, toda a comunidade educativa está apreensiva com as decisões tomadas pelas pessoas que, supostamente, sabem o que estão a fazer para nos proteger. Sabem mesmo?! A desconfiança instalou-se e veio para ficar. Mas não, não estou em pânico. As crianças que me acompanham dia a dia também não. Temos a linha da Saúde 24 para pedir ajuda e o Plano de Contingência da nossa escola para consultar. Não temos mais nada, mas não estamos em pânico. Temos serenidade, calma e bom senso, como nos pediram. E vamos todos os dias para a escola, até ao dia em que passaremos a fazer parte de uma qualquer estatística.

Adília César

LÓGOS 10 - MAIO 2022 (ÍNDICE)