sábado, 27 de março de 2021

NOTAS CONTEMPORÂNEAS [12] por Adília César

 Para ensinar, há uma formalidadezinha a cumprir – saber.

 

Eça de Queirós (1845-1900),

in Notas Contemporâneas (1909, obra póstuma)

 

"A Queda" de Paul Klee

*

HÁ PESSOAS

que são como arsenais do conhecimento. Guerreiros prontos a lutar em qualquer frente. O seu combate diário é uma guerra constante: a aniquilação intelectual do outro, empanturrado com noções, factos, pontos de vista, ideias, pressupostos, certezas inabaláveis; os outros, derrubados pelas rajadas de sabedoria, atrofiam o espírito, resumindo a activação dos seus neurónios a uma nova app, uma nova série televisiva, um novo vício, uma nova moda.

 

*

ESTÁ NA MODA

decepar cabeças através da retórica. Contudo, a barbárie do acto conduz à consequência inerente à causa, pois por cada velha cabeça decepada nasce, pelo menos, uma cabeça nova – a Hidra de Lerna, recordam-se? – e tudo muda para que tudo fique na mesma. A retórica é um monstro ignóbil, mas pode ser combatido.

 

*

O SILÊNCIO

diz muito sobre a pessoa que o assume. Gosto de pessoas que se remetem ao silêncio e nos influenciam com a sua discrição, não se dedicando nunca a caricaturar a época em que vivem com o ruído da boçalidade. O silencioso detecta a chalaça à distância e rapidamente coloca os pontos nos is. Por vezes, escreve livros que vale a pena ler. Malogradamente, são livros desconhecidos, isentos de uma construção crítica literária. Na verdade, os próprios livros acabam por se encostar a outros universos de silêncio, nas estantes das casas, nas prateleiras das livrarias, nos túmulos das bibliotecas.

 

*

A INCOMPETÊNCIA

de críticos e editores perpetua pequenas hidras de lerna na mentalidade colectiva dos leitores. Afinal, o que leva este editor a não querer publicar um bom livro e o que incita aquele crítico a efabular elogios a um mau livro? Multiplicam-se os episódios de consagração dos vaidosos e desvanecem-se as possibilidades redentoras dos silenciados.

 

*

O TEMPO

é uma arma avassaladora. É céu e é inferno, enquanto andamos pelo purgatório. Podia inventariar uma longa lista de soluções abertas à educação das mentalidades, mas não cairei na esparrela de ousar que domino e compreendo as circunstâncias que me rodeiam. O silêncio é a minha arma. A escrita e a leitura são a minha salvação porque há, pelo menos, uma certeza que me seduz: a literatura é a ferramenta da humanidade sábia.

Adília César, 

in https://issuu.com/danielpina1975/docs/algarve_informativo__285

terça-feira, 9 de março de 2021

EDITORIAL LÓGOS_BIBLIOTECA DO TEMPO Nº 1 - Setembro de 2017

Imagem de capa de Reinaldo Barros



Editorial

Para dissolver a espuma de futilidade que teima em acumular-se no tempo presente, o grupo LÓGOS – Biblioteca do Tempo tem vindo a reflectir regularmente sobre algumas questões na procura de um entendimento relativo ao meio cultural e literário. Da necessidade de alargar a discussão nesses cenários, surge o primeiro número da revista LÓGOS – Biblioteca do Tempo, enquanto memória escrita de um novo projecto literário e editorial.

LÓGOS enquanto conceito filosófico dá a razão, o sentido humano, o fundamento e o ser de algo, para conhecer, interpretar e criar. Palavra; linguagem; assunto; pensamento; racionalidade; fundamento; causa; valor; argumento; narrativa; razão íntima. Em consonância com estes princípios gerais, pretendemos dar voz ao pensamento crítico e reflectir sobre a experiência literária.

Esta publicação sintetiza algum trabalho de pesquisa que teve início em 2016, tendo em conta os pressupostos anteriores, na plataforma virtual com o mesmo nome: divulgação de textos de autor, realização de entrevistas e partilha de artigos no âmbito da literatura, filosofia e psicologia, tendo como linha condutora a nossa percepção de qualidade, de acordo com critérios de liberdade de expressão, criação artística e estética, e procura do conhecimento.

Os nossos Estatutos Editoriais consignam que a revista Lógos – Biblioteca do Tempo é uma publicação sem fins lucrativos ou ambições comerciais; é independente em relação a quaisquer orientações políticas, religiosas e ideológicas ou escolas teóricas; tem o objectivo de divulgar textos literários (ficção, poesia, recensão crítica, artigos de opinião, ensaios) e ilustrações de autor; as colaborações publicadas são da responsabilidade dos autores convidados.

Revista LÓGOS - Biblioteca do Tempo, a memória futura de experiências literárias da contemporaneidade.

Adília César, Setembro de 2021

sábado, 6 de março de 2021

NOTAS CONTEMPORÂNEAS [11] por Adília César

 (...) Você, bem sei, acha isso risível. Mas que diabo! Você é um poeta, um orador, um lutador – e eu sou apenas um pobre homem (...).

                       

Eça de Queirós (1845-1900),

in Notas Contemporâneas (1909, obra póstuma)

 

"Diário de Descobertas" - O surrealismo romântico de Vladimir Kush

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DIZER “PALAVRA”

é quase o mesmo que dizer “realidade”. A palavra é, está, constrói, destrói, vive e morre nas coisas deste mundo que nos parece tão real e de outros que imaginamos. A palavra dita, escrita, lida, imaginada. Se as coisas não tiverem um nome, temos mesmo a certeza que elas existem?

 

* 

DIZER “PALAVRA”

é quase o mesmo que dizer “humanidade”. A palavra é, está, constrói, destrói, vive e morre em cada homem e cada mulher. Se as ideias humanas não puderem ser evidenciadas pela linguagem (falada, escrita, lida e imaginada), temos mesmo a certeza que elas existem? E o ser humano, enquanto personificação de algo mais que a mera sobrevivência da espécie, existe sem as palavras? O que teria levado o grande Jean-Paul Sartre a deixar para as gerações futuras uma obra autobiográfica intitulada precisamente “As Palavras”? Disse ele: «continuo a escrever. Que outra coisa posso fazer? Nulla dies sine linea. É o meu hábito e é, também, o meu ofício. Durante muito tempo tomei a pena por uma espada; agora, conheço a nossa impotência. Não importa: faço e farei livros; são necessários; sempre servem, apesar de tudo. A cultura não salva nada nem ninguém, não justifica. Mas é um produto do homem: o homem projecta-se nela, reconhece-se nela; só esse espelho crítico lhe devolve a própria imagem.» Sim, o que nos resta?

 

*

GOSTO DE PENSAR

que somos tantas palavras e também tantas linguagens, não esquecendo que a expressão e a comunicação são facilitadas através de diferentes códigos. Mas voltemos às palavras. Todas as palavras são importantes, as utilitárias e as estéticas, desde o som nítido das sílabas até ao seu eco. Por exemplo, é inverno e o dia apresenta-se muito nublado, com temperaturas inferiores a 5 graus; saio para a rua sem casaco, sinto o frio no corpo e arrepio-me; a sensação é desagradável. A percepção física do clima conduziu-me a um discurso meteorológico e utilitário. Mas a palavra pode ser mais do que isso, através da comunicação estética de uma intenção poética e assim, escrevo um poema:

“Contemplar as ideias como quem olha botões de rosa no tecto do jardim. Num lugar médio alguns espinhos predestinam-te aos acontecimentos e ocultam-se num plano profundo as raízes da linguagem. Ah, esplendor de sabedoria. Mas é o idioma da fome, algoz de todas as dúvidas, que te fustiga. Enrolas-te nesse destino cruel para a pele sentir o frio desde o primeiro inverno. É urgente sentir alguma coisa. Secam as pétalas das flores e há uma ideia de inverno que perdura, não se sabe se por um instante ou por toda a eternidade. Não se sabe ainda nada sobre esse imenso frio da ignorância.”

O que disse eu neste fragmento de linguagem que pretendia atingir a significação estética? E qual poderá ser a utilidade deste poema?

 

* 

PODEREI ESCREVER

o mundo todo como se fosse um imenso oceano. Gotas de água, gotas de significados. Uma gota de água, onde se condensam mil sentidos. Mas de que serve inventariar o possível da linguagem poética, se a ela não estiver subjacente a experiência emocional sobre a qual pretendo poetizar? Quero escrever sobre os pássaros, mas nunca vi a plenitude do voo da águia. Quero escrever sobre as flores, mas nunca cheirei o perfume de um jasmim a desabrochar. Quero escrever sobre o amor, mas nunca toquei o rosto do meu filho por nascer. E ainda que me disponha a sentir o que é apenas um desejo de sentir, devo ultrapassar a obviedade do discurso: este é o apelo do meu caráter intrinsecamente humano. Não há poesia sem dúvidas, sem questionamento e sem as divergentes linhas de resposta, mas alguém há-de sobreviver no profundamente humano e espiritual, entre abismos, quedas e cadeirões de veludo. A salvação pode estar na intencionalidade de um poema que se escreve a si mesmo através dos gestos metafóricos da minha mão. E depois, poderei fechar os olhos e descansar antes do abismo.

Adília César, 

in https://issuu.com/danielpina1975/docs/algarve_informativo__282

sábado, 13 de fevereiro de 2021

NOTAS CONTEMPORÂNEAS [10] por Adília César

A minha alma, segundo afirma aquele homem diabólico, jaz enterrada sob densas camadas de materialidade. Acredito. Mas ela está lá muito quieta, muito confortável, muito feliz. Para que hei-de eu desbastar, adelgaçar, e furar essas abóbadas da matéria, para que a minha alma se escape para as regiões tormentosas e aterradoras da espiritualidade? É uma coisa perigos, uma alma assim solta pelos ares, em companhia de espíritos... Não lhe parece?

Eça de Queirós (1845-1900),

in Notas Contemporâneas (1909, obra póstuma)

 

"Blaubenren" - O maior meteorito encontrado na Terra (30Kg, Alemanha)

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A ENORMIDADE

dos gestos maléficos da espécie humana, perdida no abismo de um mundo que a rejeita. A água dá a vida, a água mata a vida. A criança bebe a água pura da concha das mãos de sua mãe. O cão afoga-se com dois tijolos presos ao pescoço pelo próprio dono. As mãos e as mãos, feitas de ossos, ligamentos, músculos, pele. As mãos iguais e antagónicas. O cérebro comanda o corpo, o livre arbítrio induz a filosofia do quotidiano à ética. Qual?

 

*

OS DIAS

passam a correr, desenfreados, de um lado para o outro. Estão irremediavelmente longe da linha do tempo e nem as frases repetidas nos ecos das notícias permitem a interiorização satisfatória dos últimos acontecimentos. Também esses, os acontecimentos do presente, se perdem. Para sempre? Não. Há uma criança que nasce e tudo volta ao seu lugar. O medo cede à esperança.

 

* 

A MINHA ALMA

está onde eu a coloquei: no pedestal da serenidade, dentro da casa de vidro. À volta, dispus os acontecimentos não fatais perfeitamente alinhados de acordo com a sua importância. E é este sigilo em redor a sussurrar: o meu coração é uma faca de sangue que se enterra na manteiga ao ritmo de longas frases sem sentido. É uma história que já ninguém quer ouvir. Para não desaparecer de vez apoia-se nos cotovelos das rochas e chora essas dores submersas. As lágrimas são vermelhas e riscam a minha face em sulcos de fogo líquido. Lento como o sussurro que perdura no eco daquilo que sou. A serenidade estende-me os seus braços líquidos e frescos, enlaça-me como se fosse um espírito manso, meigo, primaveril. Como se fosse a minha mãe a dar-me de beber na concha das suas mãos. E assim sobrevivo.

 

*

A COMÉDIA HUMANA

dos preguiçosos torna invisíveis as novas oportunidades de reflexão. As pessoas vivem no caos do pensamento e não sabem onde se situa a linha entre a loucura e a lucidez, entre a sombra e a luz, entre a morte e a vida, entre o corpo e o espírito. As palavras e as imagens são diferentes na sua substância, embora a um nível superior palavra e imagem sejam uma totalidade. A palavra é a expressão de um sentido abstracto, é o espírito da imagem que tem esse nome. A palavra acende o caos. Sensações, sentimentos, expectativas com nomes próprios e intransmissíveis. A imagem como apêndice da palavra conduz o seu nome até ao universo real. É difícil eliminar uma ideia recriada numa imagem porque a criação devolve-a à vida, à realidade que conheço. A imagem é física, palpável, mas pode ser uma ilusão se o imprevisível impedir o visível. O que é uma percepção da realidade? O perigo dos oxímoros: faço um gesto e guardo esse gesto numa imagem; continuo a fazer gestos e não os guardo; os gestos não inscritos nas imagens são irreais por não existirem na realidade, pertencendo, inevitavelmente, ao passado? O meu corpo é uma realidade irreal. O meu espírito é uma irrealidade real. A imagem é um drama do meu inconsciente elevado a uma consciência absoluta daquilo que sinto, o conhecimento interior que possuo naquele preciso momento e que te quero mostrar. Estamos perto do fim e já não restam imagens das lembranças, apenas sobraram as palavras.

Olha-me. Eu estou a revelar-te o que vejo, o que sinto, o que sei. Consegues ver?

Adília César, 

in https://issuu.com/danielpina1975/docs/algarve_informativo__280

sábado, 30 de janeiro de 2021

NOTAS CONTEMPORÂNEAS [8] por Adília César

 

A consciência é uma outra ilusão, uma modalidade efémera, pois que nada de eterno se pode nela realizar. De que serve ter sido, ou procurar ser, justo e bom? Justiça e bondade findam no pó, infecundos como o pó. A vida é um desolado logro. E o melhor é morrer, pois que nos liberta da miséria, da vergonha, do horror da universal falsidade.

 

Eça de Queirós (1845-1900),

in Notas Contemporâneas (1909, obra póstuma)

 

Untitled (Two on Gold), 1982, Jean-Michel Basquiat

* 

CONTEMPLAR

as ideias como quem olha botões de rosa no tecto do jardim. Num lugar médio, alguns espinhos predestinam-te aos acontecimentos e ocultam-se num plano profundo as raízes da linguagem: esplendor de sabedoria atrás de uma cortina. Mas é o idioma do medo, algoz de todas as dúvidas, que te fustiga. Enrolas-te nesse destino cruel para a pele sentir o frio desde o primeiro inverno. É urgente sentir alguma coisa. Quando as pétalas das flores desaparecem, há sempre uma ideia de inverno que perdura, não se sabe se por um instante ou por toda a eternidade. Não se sabe ainda nada sobre esse imenso frio da ignorância. Aqui tão perto, outras Flores do Mal[1] apregoam crimes de decadência e tédio e conduzem, impunemente, à absolvição.

 

*

A ÉTICA

como salvação implica um olhar amplo, como uma espécie de respiração da vida que a visão periférica alcança. No caminho dos meus olhos, o que guardo predispõe-me à acção: eu e os outros, eu com os outros, eu por dentro dos outros. O simples olhar não convoca o desequilíbrio nem as decepções, apenas a serenidade de uma flor, a força de uma gaivota, o poder das ondas, a liberdade das nuvens, a sabedoria de uma árvore, permanecem plasmados na retina. Todo o universo silencioso em meu redor. O que fazer com o que não compreendo?

 

*

OS SILÊNCIOS

também têm sangue, recolhido nas palavras sentidas, pensadas, ditas e escritas. Sensibilidade, inteligência, criatividade, pensamento divergente. O Mal e o Bem à disputa pelo lugar mais improvável: a cabeça ou o coração olham-se de frente, sem distracções; constroem pontes entre a realidade e a imaginação, sem demagogias. A ética pode salvar-nos, mas o que nos perde é o ar que respiramos e a cedência aos nossos impulsos mais viscerais, animalescos, dementes.

 

* 

A CONFIANÇA

e o cristal são tesouros sólidos, difíceis de preservar. Os seus constituintes - átomos, moléculas, iões, pensamentos e actos - estão organizados num padrão tridimensional bem definido, que se repete nos seus espaços de permanência, interiores ou exteriores, formando uma estrutura com uma geometria única, sendo que cada pessoa exibe a sua substância mais ou menos confiável. Tanto a confiança como o cristal perecem quando menos se espera, pelo toque brusco, pela vibração exasperada, pelo pensamento estupidificado ou pelo acto enganador. É necessário um apurado desvelo na sua manutenção, sendo irreversível a sua quebra.

 

* 

RECOMECEMOS

sem angústias a reorganização do mundo. Plantemos as Flores do Bem. Pois se há uma névoa que tudo apaga, também há um perfume que perdura na obra incessante da civilização. Quero acreditar que ainda há tempo.


Adília César, 

in https://issuu.com/danielpina1975/docs/algarve_informativo__279



[1] «Esse/Paira sobre a vida e entende sem explicar a língua das flores/A comunicação do mudo vivo.», p. 37, in As Flores do Mal, Charles Baudelaire, tradução de Maria Gabriela Llansol.

sábado, 16 de janeiro de 2021

NOTAS CONTEMPORÂNEAS [9] por Adília César

Bem sei, meu Deus, que nem todas as crianças podem nascer sobre as palhas de um curral, entre a vaquinha e o burrinho, com uma grande estrela espreitando, deslumbrada, através das vigas rotas do telhado! Muitas crianças têm necessariamente de nascer num quarto aconchegado, bem tapetado, onde as fraldinhas finas aquecem diante de um lume alegre, e a gorda ama espera, risonhamente desabotoada, sustentando o peito enorme, túmida promessa de todas abundâncias. Outras mesmo, e numerosas, são forçadas a encetar a vida com tradicional sumptuosidade, logo lavadas em velhas e pesadas bacias de prata, deitadinhas logo, sob preciosas rendas, em berços do mais rico lavor que uma alfaia de altar… Assim o determina a lei imutável e rígida das desigualdades humanas.

 

Eça de Queirós (1845-1900),

in Notas Contemporâneas (1909, obra póstuma)

 

"Criança geopolítica assistindo ao nascimento de um novo homem": Salvador Dali, 1943


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NOVO

ano, nova vida. Ou então, não. É o primeiro dia do ano, mas afinal já é tarde. Exaustas as nuvens, as fontes, as pessoas importantes coroadas de angústia. E depois os outros, os anónimos. O corpo é, porventura, corruptível. Transporta em si mesmo, sem orgulho, as facas, as balas, os venenos. E a cura?

 

*

A NOITE

acordou e não sabia onde estava. Talvez depois de ontem e antes de amanhã. Ela diz. Não sei onde estou. Ela pensa. Este silêncio eterno. A noite acordou-me e eu não sabia onde estava. Acordo exactamente agora e abro os olhos ao tempo. Paraondefoiotempo? O que é a eternidade? Não sei o nome destes olhos abertos. Os meus olhos abertos, os olhos de Deus. O nome do tempo que é um instante supremo de luz. O nome da luz da utopia que embala o instante puro.

 

*

O INSTANTE

que cai entre ontem e amanhã não faz parte do idioma que sei falar. É uma outra palavra que significa berço, cofre, ninho, purificação. Mas não tenho mãos para o agarrar. Guardo para sempre esse instante supremo de luz que ilumina eternamente o primeiro Menino e a sua Mãe. Virgem é a Luz, o Instante, a Pureza, a Mãe, o Menino. O Menino está nu, vestido de luz. Eu sou outra vez virgem e estou com Ele. E nasce um tempo sempre novo enquanto os meus olhos nunca se fecharem. Repito o mantra continuamente: e nasce um tempo sempre novo enquanto os meus olhos nunca se fecharem.

 

*

NUNCA,

é depois de ontem e antes de amanhã. Nunca, é para sempre. Um lugar velho para um tempo novo. E porque o Menino se fez Homem, morreu muitas vezes até à eternidade, até não haver mais instantes supremos de luz. Uma coisa que faz apenas algum barulho e depois desaparece, como uma mediação estética num filme que ninguém quer ver. Há muitas coisas no mundo que estão no lugar errado e eu não sei como tirá-las de lá. Ninguém as quer ver.

 

*

NÃO

consigo sair desta compreensão e encosto a minha cabeça alienada ao colo da Mãe. O espanto da morte revisita este quadro na Catedral do Tempo. O Menino nasce e o Homem morre, nunca se esbatendo a atracção e a intocabilidade na narrativa do milagre. Dorme meu Menino, que a noite não se vai embora. Já não importa o que aconteceu às pessoas adoradoras, mas sim o vazio das suas vidas, os constantes estados de pânico por não conseguirem sair dos seus infernos.

 

*

O CÉU,

parecendo, não é sempre o mesmo céu. Tudo muda, tudo muda. Ergue-se corajoso de encontro à sombra das noites porque sabe que é o céu onde todos os anos de todos os séculos o Menino nasce e dorme ao colo de sua Mãe. Aquele menino, o primeiro, guardado na casa de vidro do jardim, outra vez intocável, mas admirado por todos. Silent Night. O céu silencioso dos nossos infernos. As hipóteses utópicas da existência não visam a mudança, mas a redenção. O que esperar de um céu que já não brilha no escuro?

Perdoa-me, porque eu não sei o que digo. 


Adília César, in https://issuu.com/danielpina1975/docs/algarve_informativo__278

sábado, 12 de dezembro de 2020

NOTAS CONTEMPORÂNEAS [7] por Adília César

Assim a ciência vai usurpando as mais preciosas funções da poesia. São agora os astrónomos, e não os poetas, que penduram sonhos na Lua e nos raios das estrelas. E é um velho filósofo que se torna bucólico e que celebra as glórias da rosa.

 

Eça de Queirós (1845-1900),

in Notas Contemporâneas (1909, obra póstuma)

 

Foto de William Wild

*

PARECIA

um sonho. A cidade, um lugar onde eu já estive. A montra suja está decorada com sapatos fora de moda e alguns almanaques Borda D’Água amarelados. A humidade ondulou as páginas do tempo, arruinou os caminhos. Sei que já estive naquele lugar, é tão nítida a percepção de estar dentro de um filme exibido na tela do mundo. Contudo, nada será como dantes. Agora é um sonho de gente encapuçada e ninguém recorda com a veemência necessária, porque ainda está ali. Acordo. Continuo por dentro do sonho e volto a adormecer. Os meus sapatos velhos ficam presos na lama e eu descalço-os, abandono tudo e imagino que há uma porta que se abre para um mundo morno. Sei que esse mundo existe porque conheço pessoas reais – a mãe, o irmão, as filhas, os netos, o companheiro – a quem ofereço tanto amor sem qualquer máscara. Olho-os nos olhos, sem filtros. Na rua, as máscaras negras escondem as más caras que compõem o teatro do quotidiano.

 

*

SOMOS TODOS

estrelas, rosas e outros rescaldos presos numa rede tecida pela vaidade ou a discrição de cada um. Parece não haver meio termo, parece não haver bom senso, parece não haver comunicação. Na verdade, os avatares não se entendem entre si: o que uns emitem não é entendível pelos outros que recepcionam. Partilhar, gostar, comentar… e o que resta, na maior parte das vezes, é um pigarro desagradável na garganta com sabor a morte. A morte noticiada e partilhada. Constato que a morte está na moda, tendo sido iniciada uma muito consistente e elaborada necrologia facebookiana, que atravessa vários níveis de dificuldade e requinte nos inúmeros obituários à disposição do freguês: a notícia mais ou menos assolapada da morte de um familiar, bem como a memória recorrente do seu desaparecimento, ano após ano; a desconstrução exaustiva da morte trágica de uma figura pública, bem como as tentativas patéticas de fazer humor com a dor alheia. Se o primeiro nível de actividade necrológica não me choca e até colaboro no processo enviando sentidas condolências, já o segundo nível deste jogo perigoso deixa-me em estado de náusea emocional: explora-se a morte de uma figura pública até à exaustão, até ao ridículo, até à indecência de não se respeitar a dor de uma família quando morre um filho. Mas afinal, qual sofre mais, a família mediática ou a família incógnita? Isto é uma não-questão (que desconforto)! Vejo uma frágil humanidade nesta inclemência virtual e tento aprender qualquer coisa de útil para os poucos anos que ainda me restam. Não sendo possível renegar a rede (os processos virtuais para a comunicação atingiram-nos como um meteorito disfarçado de cometa, mas fazem parte da vida contemporânea e terão alguns benefícios) parece-me que um perigo maior reside, precisamente, na adoração pagã das múltiplas janelinhas virtuais do nosso dia-a-dia.

 

*

POR MUITO

que me custe, antes de partilhar algo de que me arrependa mais tarde, penso primeiro, para avaliar o meu impulso. Uso os meus filtros. Na rede social onde os "amigos" são, quase todos, desconhecidos entre si, o que significa essa "amizade" para cada um de nós? A rede pode ser muita coisa, mas não é a cura para as nossas pequenas-grandes tragédias interiores. E o ruído virtual é tão incomodativo como uma sirene de ambulância que nos sobressalta de madrugada. Continuo a usar os meus filtros e vou desistindo de criaturas que gritam, esperneiam, agridem, desabafam imundices, lugares comuns e auto-retratos flagelados pela realidade.

Abandono-as porque ignorá-las não é suficiente.

Fazer de conta que não vejo não é suficiente.

Tentar ser tolerante com a oferenda inquinada não é suficiente.

Ou então são elas que me abandonam.


*

E

calo-me. Ainda estou ali, presa na teia, mas a serenidade que ofereço a mim mesma é real e quase libertadora, sem chicotes de demagogia. O silêncio é o meu botão de pânico. Porque sei que não falar não é o mesmo que estar calada. O silêncio assumido é uma apoteose do pensamento, é a minha rosa sem espinhos. E leio poesia filosófica. A poesia é o meu botão de vida.


Adília César,

https://issuu.com/danielpina1975/docs/algarve_informativo__275

sábado, 28 de novembro de 2020

NOTAS CONTEMPORÂNEAS [6] por Adília César

A galope, a galope, ó Fantasia,

Plantemos uma tenda em cada estrela!

 

Eça de Queirós (1845-1900),

in Notas Contemporâneas (1909, obra póstuma)

 

Pintura surrealista de Remedios Varo (1908-1963)


*

ESTOU AQUI

em frente ao espelho a olhar para dentro há algum tempo. Não vejo a nitidez do que estou a pensar. A máscara é a minha cara, agora, durante o tempo todo. Não gosto. Hoje, logo de manhã, deixei cair a máscara ao chão quando tentava colocá-la. Olhei-a demoradamente e em vez de a apanhar para a deitar no lixo, pisei-a como se fosse um escorpião venenoso. Não é. A máscara é o meu rosto de todos os dias, o rosto oculto, a espessura protectora face ao agente infeccioso. Onde havemos de deitar a inquietação, se a visão periférica da patologia atordoa os nossos sentidos? Resta-nos olhar em frente, mas sem a distracção dos espelhos.

 

*

ESTOU AQUI

perante a percepção de um número infindável de corpos reais, irreais e a-reais que possuo. Alguns servem-me na perfeição como uma segunda pele e outros não cabem nesta forma disforme que se transformou em salina. Os corpos não estão todos vivos. Caminho por entre os mortos com o meu corpo imaginário, despido de nobreza e de afectos permitidos. Apenas uma enorme compaixão anónima e universal por aquilo que consigo ser, a personificação da tragédia, quando as palavras arrefecem abruptamente e congelam naqueles gritos silábicos, fonemas condensados em alturas tonais fortificadas nos medos: uma sinfonia harmónica do terror da morte afogada no sofrimento. Caminhamos agora todos juntos outra vez e o que não vemos é o que sabemos não nos pertencer, a fisicalidade perene dos corpos vivos. Talvez os deuses nos esperem. Talvez os demónios sombrios sejam cegos na sua fome de maldade e não reconheçam os sinais de quem aceitou a fatalidade enquanto passeia serenamente sobre as águas. Talvez a vida seja isto. Um oceano infinito de paz, ao alcance do nosso corpo imaginário, sem nome, longe dos trópicos do medo.

 

*

ESTOU AQUI

numa fuga à percepção viva do que julgo ser a minha realidade, através de um imaginário emocional de nevoeiro melancólico. A vida, antes fantasiada - a fuga à realidade impõe-se através da fantasia - torna-se agora estéril e imutável, pela impossibilidade de existência no meu mundo que penso ser real, através dos arrepios de frio. A essência do que sinto não existe, apenas insiste num gesto de telepatia espiritual – a realidade inatingível do universo dos outros, antes irreal e idealista, torna-se agora "a-real". No entanto, desenvolver conceitos abstractos é agora uma tarefa árdua e irrelevante: há dias que são apenas dias parecidos com os anteriores; há um frio que é apenas o frio que me obriga a vestir um casaco; há um tempo de confinamento forçado que me leva a escrever um longo conto sobre, precisamente, o tempo de confinamento. Decerto, um tema pouco original. Esta vontade abrupta de dizer qualquer coisa, levada ao seu expoente máximo, como um galope da fantasia que quer entender a realidade. Então, um dia, as palavras escreveram-se sozinhas:

- Lá fora, os outros.

E eu, cá dentro, a viver uma não-vida, pensando, lendo, escrevendo. Lá fora, os outros, alguns atentos e tantos distraídos. O acto público de exposição do pensamento criativo está cravejado de estrelas cintilantes que os outros adoram ou ignoram. Eu escrevo, tu escreves, ele escreve, nós escrevemos, vós escreveis, eles não lêem. Ponto final.

 

*

FICO POR AQUI

porque hoje não consigo ir mais longe. Os dias são, na verdade, provisórios e possuem uma fronteira demagógica em relação ao corpo das notícias elevado até ao expoente do absurdo: números, estatísticas, orientações, restrições, contradições. E depois ainda mais números, mais estatísticas, mais orientações, mais restrições, mais contradições. E depois… O melhor é não pensar mais nisto em que estou a pensar. Partir o espelho, quebrar a muralha da inquietação.


Adília César

https://issuu.com/danielpina1975/docs/algarve_informativo__273

NOTAS CONTEMPORÂNEAS [5] por Adília César


As cinco tiras de papel ali estão sobre a mesa, lívidas, irónicas, vazias:

e é necessário enchê-las todas, de alto a baixo,

com coisas extraídas do nosso interior.

 

Eça de Queirós (1845-1900),

in Notas Contemporâneas (1909, obra póstuma)

 

s/título, por Cruzeiro Seixas (1920-2020)

* 

A ORIGEM

implica todas as percepções relativas aos acontecimentos. Não é possível queimar etapas. Volto atrás para compreender como tudo começou. Um flashback – como se diz em português? – um flechebeque, pois, um regresso, um retorno, um retrocesso. Súbito de luz que não se apaga.

 

*

A MINHA MÃE

foi durante muito tempo uma leitora assídua da biblioteca municipal da cidade onde vive há mais de 60 anos. Ultimamente, o seu ritmo de leitura era de cerca de três livros por semana. Alguns problemas degenerativos de visão vieram impedir essas horas diárias de felicidade e assim, quando posso, ofereço-lhe não só o livro, como antes, mas também tempo de leitura em voz alta. Ao ler poesia para a minha mãe dei-me conta de uma intimidade única, muito nossa, na experiência de leitura e de comunicação sentimental - amor, solidariedade e fruição estética. Na verdade, é muito comovente. Já me têm perguntado para que serve a poesia: não sei, talvez sirva para recriar o meu cordão umbilical com aquela mulher espantosa que me deu a sua e a minha vida inteira. Hoje, dei-lhe uma hora do meu tempo. Quanto tempo tem uma hora?

 

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A VIDA

é uma miragem dos sonhos quando o tempo não dá tempo para olhar o passado e nos obriga a aceitar que o fluído temporal não é um horóscopo de filtros cor de rosa. Outras cores tingem a espuma dos dias. Perante o desconhecido, fugimos dos acontecimentos como se nos desviássemos daquelas pequenas ondas de um mar de outono. Frio, sombrio, perturbador, mas ainda não fatal. E caminhamos enquanto nos sugam a energia e a paciência.

 

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A OVELHINHA

e o lobo estão em cena no mesmo plano ficcional. A ovelhinha existe porque o lobo a deseja. O lobo existe porque a ovelhinha o deseja. Mas ela tem medo.  E ele gosta que ela tenha medo. A ovelhinha não sabe que pode saltar para as costas do predador. Não sabe que tem tempo, muito tempo, para aprender a dar o salto até àquele lugar que se chama lonjura, longe dos dentes afiados que lhe rasgam a voz.

"A lonjura não existe", diz a ovelhinha.

"O eco de uma existência banal é silencioso", responde o predador.

E ambos se calam para sempre. O silêncio da morte é tão concreto como a vida que o antecedeu. O vencedor será sempre a voz que conta a fábula.

 

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POETIZAR

é um verbo decadente. Nas mil páginas escritas pelos outros, de acumulação coerciva do discurso, lanço a ousadia do escárnio. Rir é o melhor remédio. Rir dos sentires das almas bafejadas pela inspiração divina ao encherem cinco páginas de coisa nenhuma. O silêncio é dizer o nada, porque tudo já foi dito, noutros silêncios, com outras linguagens. E ninguém entendeu.

 

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DE REPENTE

alguém rompe o seu espírito e derrama naquele lugar o pensamento, a loucura, o suor, a utopia, a pretensão. O seu corpo é um prolongamento da razão e emoção, concretizadas, de algum modo muito particular e original, na obra de arte. A mão que se impõe é a própria vida e a possibilidade criativa no presente projecta o imaginário numa memória futura: este é o artista. Um dia, o imaginário do espectador será preenchido pela estética do criador. No momento dessa compreensão entramos livremente num universo desconhecido, de olhos fechados, inundados de luz: esse quarto escuro onde brincamos com o corpo todo.

 

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E SE

embrulhássemos bagos de uva em papelinhos de rebuçados? As uvas recriam um travo doce na nossa língua amargurada. De tão amarga. E por fim, ainda não será o fim.

Adília César

https://issuu.com/danielpina1975/docs/algarve_informativo__271

NOTAS CONTEMPORÂNEAS [4] por Adília César

Ora, fazer rapidamente, e cada semana, esta simplificação concentrada da história, como o Tempo detidamente a faz através dos séculos vagarosos, é tarefa mais arquejante do que fabricar uma nobre teoria social ou desenrolar uma nova fórmula de arte.

 

Eça de Queirós (1845-1900),

in Notas Contemporâneas (1909, obra póstuma)



Arte de Michal Klimezack-SHUME
 

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A HISTÓRIA

da humanidade está cheia de pontos de exclamação. O Bem e o Mal, Deus e o Diabo, Eu e Tu. O que parece ser nome de oposição é, afinal, complementar, deliberativo; tantas margens para a mesma ponte que tentamos atravessar durante as nossas vidas coexistentes: nós e os outros. Como reconheceríamos uma boa nova, se a malignidade não existisse na comparação das respectivas consequências das nossas acções? Como invocaríamos um qualquer deus, se queremos fugir dos diabos a todo o custo? E por fim, mas talvez o mais importante, quem sou eu sem ti, nesta trama social onde construímos lugares mentais em constante movimento, nem sempre devidamente registadas nos arquivos do tempo?

 

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A ARTE

é uma tautologia. A arte existe na arte, é arte enquanto processo e produto (criativos), está omnipresente no ser humano, perpetua-se a si mesma numa projecção eterna. A arte, nas suas diferentes manifestações, é tudo aquilo a que chamamos arte. Insisto na arte da mesma maneira que pareço ansiar por uma doença, um eczema incomodativo: sinto um ímpeto e escrevo compulsivamente, mas não quero apesar de querer. A experiência estética vai muito além do mero entretenimento, da compreensão natural de um fenómeno artístico, causando-me, por vezes, uma espécie de náusea emocional. A obsessão pela escrita perdura para lá de um frágil equilíbrio, atravessa uma fronteira que eu nem sabia que existia. Escrever porquê? Só tenho uma "não-resposta": escrevo porque tenho que escrever, escrevo porque sim. Escrevo a minha escrita e chamo-lhe arte. Porque sim.

 

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A IGNORÂNCIA

sabe que tem um destino oculto. O dorso macio e morno, os olhos pestanejantes e assombrosos, o discurso fácil e comovente. De vez em quando volta-se do avesso: crescem-lhe cornos na cabeça, saem-lhe espinhos das mãos, torna-se cega e muda. E fica muito quieta, à espera dos incautos que caem na sua armadilha. A ignorância pode surgir na forma de uma ideologia política, uma religião, um provérbio popular, mas nunca é uma distracção ou um acidente de percurso. Pelo contrário, é uma tenacidade voluntária fundamentada na incompetência colectiva e no medo face ao poder – formal ou informal – instituído. Aceitar a ignorância, sem esforço de contestação, é uma espécie de morte. É um crime.

 

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O QUOTIDIANO

é superlativo. Noticiários infindáveis, decalcados uns nos outros, fazem a história da actualidade pandémica. As imagens e os sons passam a galope, parecem dirigir-se a mim, mas passam mesmo ao lado, sem deixar rasto. Por vezes, ocorre-me a infeliz ideia de que essas notícias não conseguem comunicar comigo porque eu não sou deste mundo. Não sou daqui, ocupo este lugar por mero engano cósmico. Não, eu não posso ser daqui quando não posso ausentar-me para parte incerta, longe dos velhos que morrem entubados, sozinhos; longe das barrigas inchadas por hérnias que parecem querer explodir sem que o SNS intervenha; longe das mãos estendidas; longe das obrigações impostas. A máscara não cobre apenas a boca e o nariz: é uma outra face total deste abominável mundo novo que nos caiu em cima da cabeça. A máscara serve para ocultar a tristeza. Eu agora uso máscara e assumo esta crua consciência de que sou de um país que ainda não existe.

Adília César

https://issuu.com/danielpina1975/docs/algarve_informativo__269

LÓGOS 10 - MAIO 2022 (ÍNDICE)