segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

A LITERATURA É UMA FESTA

Quando se fala de literatura a arena enche-se de farpas e capotes, cavalos e cavaleiros. O boi é crítico: investe no espectáculo e envia quase todos para o matadouro. Mas há sempre alguém que lhe puxa pelo rabo, derrapa duas voltas em sapatinhos de ballet e afasta-se em pose de quem ganhou mais um prémio. Os aficionados aplaudem a obra taurina, pedem bis e autógrafos, lançam elogios e bijutarias; o director da corrida, esse editor bandarilheiro, sopra na corneta para mais uma edição.
E a festa da literatura continua. Não é rija porque a prosa é mole. Despidos do traje da vaidade intelectual, os escritores só então percebem que as luzes do espectáculo têm a modéstia potência que lhes assistem nas suas habilidades criativas. Antes, porém, não compreendem que o silêncio, o deles, também pode ser um favor que se presta à humanidade. Como não entendem que a humildade, se for genética, é o melhor capítulo da vida deles.

Conheço escritores para todos os gostos e desilusões: os que passam o tempo a palitar o pensamento em busca da tal metáfora associada ao pastelinho de bacalhau; os que velam pelas relíquias dos poetas mortos, angustiados que se sentem no arranjo de uma palavra que lhes escapa para a composição dum verso mumificado; os que mergulham na escrita com colete de salvação e bóia de sinalização a avisar «cuidado aqui está um cérebro a meter água»; os que ofendem o tempo dos seus leitores com charadas linguísticas e miniaturas reflexivas: são personalidades obscurecidas pela interioridade luminosa dos seus próprios pensamentos; pessoas afectadas: nem pavão nem plumagem. Há também os suicidas simulados: escrevem pelo prazer mórbido de identificarem aqueles que os acompanham no aborrecimento funesto dos seus próximos livros.

Conheço os que amam as palavras e a natureza. Porém, quando têm ideias, deixam-nas morrer de sede. Dedicam-se ao comércio das influências. O gráfico das suas inspirações fica sempre aquém daquilo que são capazes de escrever. Há os que procuram conforto na sombra dos outros. São escritores magoados e inseguros. Procuram o ombro alheio como almofada para a consciência deles. Têm atitudes mínimas, tanto na vida como na escrita, e são afectos a grandes enaltecimentos para proveito próprio. São uma espécie de toupeira. E, claro, também são oportunistas.

Conheço os que frequentam todos os salões de poesia e encontros literários. Têm inclinação para a cultura fútil e sofrem de delírio pelas personalidades bem instituídas. Devem-lhes em reconhecimento o que eles nunca poderão pagar em obra criada. Normalmente têm um discurso de mercadores (andam com os seus livros num saco), e as ideias expostas no papel têm a caducidade dos produtos de necessidade duvidosa. São escritores que dizem por fora o que não conseguem escrever por dentro. Uma questão de interioridade.

Os mais curiosos e patéticos são os que procuram salvação. Passatempo: morrer quantas vezes for necessário para se convencerem de que ainda estão vivos. Ilusionistas do disparate. Ressuscitam sempre quando ninguém dá conhecimento da existência deles. Cadáveres convencidos.
E há os que se prestam à grata função decorativa em sessões de homenagens e festas literárias. São flores para tanto colorido. Em termos literários, são criativos na imbecilidade e repetitivos na abordagem poética. Entre dois copos, croquetes em posição de mastro e guardanapo desfraldado, nas tais festas giras com editores marinheiros e críticos enjoados, os seus projectos navegam de vento em pompa e circunstância. Na ressaca, as promessas da véspera encalham nos cornos do esquecimento.
Só as flores prometem tanta beleza.

Este é um escritor original: amigo da literatura ao ponto de rejeitar a escrita. Mantém-se fiel à angústia que herdou da sua cisma visionária. O tempo é a sua musa. A preguiça a sua obra. Expõe-se nos labirintos da ilusão. Tem a intuição da palavra, mas transformou-se num indivíduo amaldiçoado pela arquitectura da frase.
E assim vai o romance e a poesia em cortejo de sacrifício; e embora seja pobre a boda, da festa ninguém desiste.

fep

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