sábado, 15 de maio de 2021

NOTAS CONTEMPORÂNEAS [15] por Adília César

O riso é a mais útil forma da crítica, porque é a mais acessível à multidão. O riso dirige-se não ao letrado e ao filósofo, mas à massa, ao imenso público anónimo. É por isso que hoje é tão útil como irreverente rir das ideias do passado: a multidão não se ocupa de ‘ideias’, ocupa-se das ‘fórmulas visíveis’, convencionais das ideias.

 

Eça de Queirós (1845-1900),

in Notas Contemporâneas (1909, obra póstuma)

 

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 AS IDEIAS

são como as pessoas que as idealizam. As ideias velhas vêm do passado e ficam por ali, a aquecer a garganta, como um cachecol de lã. Por vezes, surge uma ideia nova que insiste em vestir o mesmo corpo, como um lenço de seda. Não sabemos o que fazer com tantas ideias, com tantos adereços. Tentamos guardá-las nas prateleiras do cérebro e nas gavetas do coração, mas elas limitam-se a vaguear pelas ruelas do silêncio e da solidão. Às vezes, as nossas ideias vestem-se com palavras. Neste sentido, há palavras de couro, gaze, lã, seda e outras tramas desmoronadas. Outras vezes, o espírito encerra uma violência insuportável e ainda alguns preconceitos, tão, mas tão inúteis: as palavras de arame farpado ostracizam o inefável humano.

 

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A CONFIANÇA E O CRISTAL

são tesouros sólidos, difíceis de preservar. Os seus constituintes – átomos, moléculas, iões, pensamentos e actos – estão organizados num padrão tridimensional bem definido, que se repete nos seus espaços de permanência, interiores ou exteriores, formando uma estrutura com uma geometria única, sendo que cada pessoa exibe a sua substância mais ou menos confiável. Tanto a confiança como o cristal perecem quando menos se espera, pelo toque brusco, pela vibração exasperada, pelo pensamento estupidificado ou pelo acto enganador. É necessário um apurado desvelo na sua manutenção, sendo irreversível a sua quebra.

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Escultura de Gustav Vigeland - Parque Vigeland, Oslo

 

MAS

também podemos pensar nos panos que cobrem a nudez do corpo e do espírito como um vestuário emocional que nos protege das intempéries relacionais e sociais. Sabemos que esses panos têm as cores dos preconceitos e dos falsos pudores, essas terríveis vagas de desconforto. O que quer dizer que podemos despir as roupas, mas nunca ficamos completamente nus. A nudez é sempre interior. A pele que vês em mim é apenas o contorno do meu corpo vestido com as ideias que extravasam as fronteiras da minha humanidade.

 

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 SE

nenhuma perspectiva sobre o mundo é definitivamente verdadeira, apenas te resta rir da minha vaga desorientação, da minha tentativa de levar a vida a sério e, ao mesmo tempo, de não a levar a sério. Rio e choro, tento agarrar o mundo e também o abandono. A vida é tão irónica e presunçosa. Conhece a relação entre a morte e a beleza, entre o mistério e o sangue derramado. O paradigma será sempre de expressão auto-destrutiva do amplo universo paradoxal que existe em cada pessoa. Destruir para poder construir. E assim se passam os dias. O tempo o tempo. A vida a vida. Eu e tu.

 

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 AFINAL,

somos murmúrios do tempo, depois de uma breve interacção com as alegrias e as tristezas dos que me rodeiam e dos que nem sequer sabem que eu existo. Somos ironias ecoadas no infinito cosmos até aos confins da última luz, aquela estrela que guardámos para rir no fim, em luminosa companhia. Eu e tu vestidos de nada. Tão vivos, tão fascinantes, passamos incógnitos por entre uma massa de ideias convencionais face à brevidade da nossa passagem. E de repente, tomamos consciência das infinitas possibilidades ao nosso alcance. Assumimos um estilo, uma forma de aparecer perante os outros. Tu e eu, a rir.


Adília César, in https://issuu.com/danielpina1975/docs/algarve_informativo__291

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